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O surgimento do socialismo e a luta dos povos por liberdade face à escravização capitalista

 

Antecedentes: um pouco de teoria

 

 

          Desde que, nos primórdios da Civilização, grupos humanos tentam se organizar em auto-defesa contra aqueles que os dominam, a luta se trava diante de dificuldades imensas. Isto é válido para os escravos rebeldes de Roma sob a liderança de Espártaco, todos crucificados na Via Ápia após tentar sua autodeterminação e independência; válido para os anabastistas alemães liderados por Thomas Muenzer, ansiosos por um retorno ao ideal de um “cristianismo primitivo” comunitário, tentando iniciar por uma Reforma Agrária, enfrentaram os protestantes liderados por Martinho Lutero em aliança com os príncipes alemães, que, eles sim, se apropriaram das terras da Igreja de Roma, massacrando os anabatistas e relegando sua revolução ao esquecimento histórico. Estes dois exemplos – dentre milhares que, ou se esqueceram nos livros de história ou foram violentamente detratados ao longo dos séculos – dão-nos a dimensão do problema que se enfrenta quando há uma proposta séria de autodeterminação e independência.

            Tal ocorreu ainda na França Revolucionária que, em 1789 viu a traição burguesa aos ideais jacobinos, de um povo que se ergueu em luta por uma vida melhor e, ao final, na prática, somente trocaram os patrões nobres e eclesiásticos por patrões burgueses. Em 1871 um acontecimento que cobre até os dias de hoje a França de vergonha foi sua derrota para a Alemanha na Guerra Franco-Prussiana pela posse da rica região da Alsácia-Lorena e, muito pior que isso, com o apoio do vencedor estrangeiro, Otto Von Bismark, reuniu um governo títere dos vencedores alemães em Versalhes e massacrou os trabalhadores franceses que já demonstravam sucesso na construção da Comuna de Paris.

            Felizmente, temos o relato fiel do ponto de vista dos revolucionários, dos “communards” pois a Liga Internacional dos Trabalhadores, fundada por Karl Marx, Friedrich Engels e Mikhail Bakunin entre outros, já estava ativa e acompanhou de perto os desdobramentos dos fatos durante a tentativa, infelizmente baldada, da construção de uma Comuna em Paris. De todas as lutas anteriores a esta, os relatos que nos chegaram às mãos são exclusivamente aqueles que trazem a chancela dos vencedores, portanto, não há credibilidade para além de alguns fatos históricos ocorridos e relatados com a cautela característica de quem precisa omitir o essencial e prender-se à periferia dos acontecimentos.

            De certa forma a Comuna de Paris nos permite antever em muito o que ocorreria cerca de meio século depois na Rússia Czarista: uma nação que levou seus cidadãos a combater uma guerra contrária aos interesses legítimos dos lutadores; saíam de casa deixando a família faminta e voltavam famintos para a família faminta caso sobrevissem à matança de uns aos outros insuflada pelos patrões; e os “vencedores” saem do conflito em situação pouca coisa menos miserável que os “vencidos”, em que pesem os toques de trombeta e festejos múltiplos nos casos de vitória e vergonha coletiva nacional nos casos de derrota. A realidade era outra.

            Antes de Karl Marx e Friedrich Engels se debruçarem a sério sobre a questão operária no mundo, várias teorias surgiram e, pelo seu tom idílico, idealista (em suma, irreal, dada a condição humana no mundo) foram considerados “Socialistas Utópicos”. Imaginavam que, com um diálogo franco e aberto entre os exploradores e os explorados se poderia chegar ao fim da exploração do homem pelo homem; ou que através de avanços tecnológicos mais trabalhadores teriam tempo livre e a sociedade burguesa daria, pelo seu próprio desenvolvimento tecnológico, mais liberdade e melhores condições existenciais aos trabalhadores. Os mais avançados entre os Socialistas Utópicos são os Anarquistas que imaginam possível a elevação intelectual e moral dos seres humanos no seio mesmo da sociedade burguesa e, a partir desta deste ponto, eliminar a máquina estatal, não nos enganemos quanto a este pormenor gradualmente. Os Anarquistas jamais propuseram o fim do Estado de maneira brusca e imediata (isso, até os mais delirantes entre os românticos reconhecem, dada a condição humana dentro da sociedade burguesa, redundaria na mais aterrorizante bagunça), o programa anarquista preconiza um gradual esclarecimento popular, visa elevar moral e intelectualmente um povo oprimido, sufocado pelo excesso de trabalho e propaganda burguesa. Eelaborado cautelosa e profundamente por gente do quilate de Jean-Pierre Proudhon, Errico Malatesta, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin e tantos outros, por vezes divergentes em alguns pontos, frequentemente ingênuos quanto à possibilidade de elevação intelectual e moral dos trabalhadores nas condições da sociedade burguesa, mas concordantes que O ESTADO É O GRANDE MAL E PRECISA SER SUPRIMIDO PARA QUE O POVO SEJA ENFIM LIVRE.

 

 

 

 

A Filosofia Clássica Alemã e a Economia Política Clássica

          O filósofo Alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel criou um sistema filosófico complexo e não se pretende aqui sumarizá-lo; fica a referência para pesquisas futuras. Estudantes de Hegel em Berlin formaram um grupo à direita (que desemboca na belicosidade da Alemanha Nazista) e um grupo à esquerda (que desemboca no Materialismo Dialético de Marx e Engels e, por extensão, na Grandes Revoluções Operárias do mundo). Por muitos séculos, devido à influência brutalmente nefasta do cristianismo, a filosofia ocidental se aferrou a Platão, Sócrates e Aristóteles, considerando todos os outros pensadores da Grécia Clássica, no máximo, como “precursores do pensamento socrático, platônico e aristotélico”. Não raro encontramos obras estranhas com trechos de outros filósofos gregos que não os três que marcaram os mil anos da dominação temporal e hegemonia intelectual sobre o Ocidente Cristão, com títulos como “Filósofos Pré-Socráticos”, muitos deles contemporâneos e mesmo POSTERIORES a Sócrates, como se toda a filosofia grega apontasse na direção dos sistemas simples desenvolvidos por aqueles três grandes. Hegel se debruça em particular sobre o pensamento de Heráclito de Éfeso e, onde a filosofia patrística via permanência ou continuidade, Hegel, resgatando Heráclito, vê o conflito, a transformação, a mudança como essência da história. Aos diálogos platônicos, Hegel contrapõe a noção de Dialética, não mais como conversa entre pessoas em busca de uma determinada conclusão, mas como o próprio processo dinâmico que subjaz a todos os acontecimentos, vendo neles as guerras, as pestes, as trocas de poder, em suma, a violência.

            Marx estuda a fundo o trabalho riquíssimo de Hegel que, contudo, permaneceu restrito à academia, sem jamais sair ou chegar sequer próximo da vida real das pessoas reais em seu cotidiano. Segundo Marx, “em Hegel a Dialética está de ponta-cabeça, cabe colocá-la em pé!” De Feuerbach Marx aprende o materialismo mais preso à realidade – infelizmente, “mais preso que à relidade” e traz o dinamismo da dialética ao materialismo filosófico de Feuerbach afastando-se de ambos e inaugurando um campo novo de pesquisa, até hoje imbatido: o materialismo dialético. A dialética “espiritual” de Hegel aplicada em conjunção complexa com o materialismo “mecanicista” de Feuerbach, em linhas gerais, formam a base do sistema filosófico de Marx e Engels que, como deve ser óbvio, por lidar com a realidade complexa de povos complexos em seu desenvolvimento dinâmico no cotidiano, não se apresenta pronta e acabada. NÃO!

            Engels dedica-se mais às Ciências Naturais, vendo o desenvolvimento dialético nas descobertas dos biólogos, dos químicos, dos físicos e mesmo dos cientistas sociais. Marx parte para o estudo da organização econômica da sociedade. Evidentemente há algo muito errado nas teorias vigentes. O penúltimo dos economistas, Adam Smith, avançou até o conceito do valor-trabalho. Assim: durante a Idade Média, considerava-se a posse da terra como fonte da Riqueza das Nações pois que se planta um grão e a terra faz com que aquele grão se transforme, se multiplique; portanto, os FISIOCRATAS, economistas da Idade Média, preconizavam a posse da terra como fonte da Riqueza das Nações. Com as grandes navegações surge uma nova classe de cidadãos que atravessam oceanos e, seja por saques e bombardeios, seja por trocas vantajosas (alguns pedaços de vidro colorido em troca de ouro que era trazido da América à Europa é o exemplo classicamente apresentado) enriquecem muitíssimo alternando o eixo da propriedade e, com ele, a própria sociedade, que deixa de ser feudal e passa a ser burguesa. Os MERCANTILISTAS concluem que são as trocas financeiras vantajosas a origem da Riqueza das Nações. Adam Smith avança em relação a estes e propõe questões pertinentes: “quem plantou o grão e cuidou para que ervas daninhas não o sufocassem?”; “quem atravessou o Mar Oceano em busca de trocas vantajosas?” E concluí acertadamente: não é a terra per si que constitui a Riqueza das Nações; tampouco as trocas vantajosas como teoria filosófica abstrata. A Riqueza das Nações é produzida pelo TRABALHO HUMANO.

            O último dos economistas, Karl Marx, dá um importante passo adiante em relação a Adam Smith e aponta que, através da extração da mais-valia, além de outros dispositivos políticos e jurídicos, o trabalho humano que gera a riqueza coletiva das nações é apropriado privadamente por um pequeno grupo de espertalhões. Dedicou a sua vida a combater a apropriação privada do fruto do trabalho coletivo.

            Em tempo: Karl Marx  levou a Economia ao nível mais elevado de toda a história humana e houve estudiosos a lhe aprofundarem alguns aspectos (Rosa Luxemburgo e Vladimir Lênin, dois importantíssimos teóricos e práticos do marxismo no início do século XX trazem avanços DENTRO da teoria criada por Karl Marx) suas teses seguem e seguirão imbatidas enquanto a sociedade cindida em classes sociais antagônicas não for superada e não cheguemos ao ponto propugnado pelos socialistas de todos os matizes, ou seja: uma sociedade sem Estado e Justa; sem exploradores nem explorados. O mesmo se pode dizer do ferramental que ele criou para a compreensão do processo histórico humano. Ainda não surgiu nas Ciências Humanas melhor ferramental para o conhecimento da realidade humana em seu dinamismo diferente do Materialismo Dialético.

            Agora a Classe Operária tem uma Teoria Filosófica (a mais avançada que o engenho humano conseguiu até hoje elaborar) e uma Teoria Política Econômica de ponta. Cabe aos trabalhadores do mundo dar-lhe prosseguimento, seja em estudos aprofundados, seja solucionando na prática os problemas colocados pela prática, momento a momento.

            Já destacamos a Comuna de Paris (além de outras tentativas ainda não totalmente sucedidas) como busca à chegada a uma sociedade sem Estado, sem classes, sem a exploração do homem pelo homem. Vimos que a Comuna de Paris fracassou por haver sido massacrada por alianças entre a burguesia francesa e a burguesia prussiana logo após a vitória prussiana sobre os exércitos franceses em 1871. 

 

 

 
 

Lições de Outubro e a Globalização (ou Ditadura de Wall Street) em que vivemos hoje

            A Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 merece um estudo mais aprofundado, à parte. A repetição da propaganda maciça, massacrante, monocórdia e hipnótica da burguesia de todo o mundo de que, “com a queda do muro de Berlin” chegamos ao fim da história e das utopias e o máximo a que a humanidade pode chegar em termos de organização social é o capitalismo internacional por definição, e hoje monopolista pois que sem um contraponto em qualquer Estado Socialista “Real” deve ser desprezada. Os poderosos sempre tentam interromper a roda da história por estarem no topo, mas esta segue rumos que não obedecem à sua propaganda.

            Em 1929 aprendemos que o capitalismo sem regulamentação ou controle estatal algum está fadado ao insucesso mais retumbante. O fim do Estado Soviético (vamos analisar até que ponto era de fato “comunista” ou “socialista” na sequência), derrotado no campo externo pela corrida armamentista fomentada pelo Ocidente e, no campo interno por um encaminhamento distorcido das teorias marxistas, faz surgir um momento histórico (não nos enganemos, é apenas um momento, que dura mais ou menos a depender das condições concretas do desenvolvimento histórico dos povos do mundo) a que se apelidou de “Globalização” e provoca como resultado a concentração da renda socialmente gerada em menos de 1% da população mundial – fato inédito na história humana, por sinal! Em todos os países trabalha-se cada vez mais em troca de rendimentos decrescentes e as eleições periódicas se transformaram num teatro bufo com vistas miseravelmente a manter no poder político os comissários dos bancos, das grandes corporações e dos jogadores na bolsa de valores sejam estes (comissários) autodenominados como queiram, aos donos do poder pouco importa se na China se auto-intitulam “comunistas”, nos EUA se “democratas” ou “republicanos”, no Brasil, se “tucanos” ou “petistas” desde que mantenham as privatizações, a ausência de controle sobre a atividade especulativa, se mantenham os salários sob rígido controle em níveis cada vez mais distantes da dignidade humana, enquanto preços e impostos (que também revertem, ao final das contas à jogatina internacional) são livres e crescentes.

            Durante quanto tempo os povos do mundo tolerarão isto? Com a força da propaganda, hoje ativa até em programas presumivelmente noticiosos, jornais outrora dignos de alguma credibilidade e institutos de pesquisas de estatísticas e opiniões, é de se presumir que tenha ainda folgada sobrevida. Contudo, a não se alterarem os rumos deste encaminhamento político-econômico nefando a mais de 99% da população do mundo, em algum momento ocorrerá um despertar de consequências, infelizmente, imprevisíveis.

            A perseguição ou cooptação das antigas lideranças da esquerda vem se demonstrando tão eficiente que faltam organizações autênticas que representem os interesses dos trabalhadores, os líderes em potencial se encontram espalhados, em grande medida silenciados pela grande imprensa, banidos das Escolas e Universidades e mesmo impedidos de publicar suas teses em organismos de grande repercussão. Há a Internet, mas, como sabemos, a minoria que tem acesso está majoritariamente formada por pessoas que, embora empobrecidas pelas medidas tomadas pelo grande capital internacional, imaginam ser este, se não o melhor, o único mundo possível.

            Trata-se de uma situação insustentável, pois a propaganda se distanciou demais da realidade e poucos ainda nela acreditam. O maior mal do mundo contemporâneo é a apatia. A apatia serve bem aos interesses de quem está no comando. A pulsão revolucionária é banida ou ridicularizada – mesmo por aqueles que só poderiam sair da merda em que se encontram por esta via.

            Aos 54 anos, confesso ver um tempo tão complexo e difícil que não imagino viver para ver alguma reversão no quadro negro que nos pintaram.

            Em maior medida, chegamos a esta situação devido aos méritos da burguesia dominante no ocidente cristão, sem dúvida! Mas uma parcela significativa de culpa deve ser imputada também a todos os que, na URSS, particularmente após Lênin, transformaram os erros no encaminhamento do socialismo por lá em “teorias revolucionárias canônicas”, criando banimentos, expurgos e apodando em quem lhes apontava os erros a pecha infamante de “agentes contra-revolucionários”.

Lázaro Curvêlo Chaves - 22 de Outubro de 2013

                 
               
                 

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