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Grécia, Período Clássico (500 a 338 anos Antes da Nossa Era) - Iluminismo Iônico e Guerras Pérsicas

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O Florescimento das Cidades-Estado e as Invasões Persas 

           Reiterando: usualmente fazemos uma divisão em períodos distintos a fim de simplificar a compreensão das transformações que ocorreram na Península àquele tempo. Não se vá, por favor, imaginar que um cidadão da Hélade desperte numa manhã 499 anos Antes da Nossa Era celebrando: "Ôba! Saímos do Período Arcaico e entramos no Período Clássico!". Nada disso... Essas "periodizações", muito comuns em História, apenas nos ajudam a nos situar, em busca de entender um tantinho melhor a que afinal nos referimos...

 

 

Colônias Gregas na Ásia Menor

            A Ásia Menor, também chamada de Anatólia (“pequena Ásia”, em Grego) ou Jônia foi inicialmente ocupada por povos Medo-Persas; aos poucos o desenvolvimento particularmente de Atenas, mas também de outras cidades-estado gregas, fizeram com que, na maior parte das vezes gradualmente, por vezes, militarmente, aquelas cidades passassem a nortear sua Cultura e Civilização segundo os parâmetros Gregos, não mais Persas. Continuavam, contudo, submetidas ao Império Persa que lhes concedia razoável liberdade.

            Heródoto de Halicarnasso, ele mesmo um “Iônio” arrola algumas das cidades da Ásia Menor em sua Obra Clássica que recebeu o nome de “Histórias”, composta de nove livros em que busca, principalmente, a causa da discórdia e consequentemente do conflito entre Gregos e Persas, para o que precisa visitar toda a região do Mediterrâneo sob influência Grega ou Persa, fazendo uma descrição tão acurada e fiel quanto possível ao tempo em que viveu; não se fazia, à época, diferença entre relatos mitológicos e factuais, contudo Heródoto se esforça para descrever o que vê ou ouve das muitas testemunhas com quem dialoga, frequentemente com o uso de tradutores e intérpretes. Na Ásia Menor visita Éfeso, Esmirna, Halicarnasso (sua cidade natal), Mileto, Bizâncio... Visita o Egito (então Província Persa), a Fenícia, a Península Itálica e nos fornece relatos preciosos a partir de um conhecimento novo, desenvolvido no que ficou conhecido como “Iluminismo Jônico”: a logo grafia, que buscava descrever o que se via com acuidade. Heródoto utiliza-se principalmente do relato escrito, portanto não precisa do uso dos antigos versos que visavam facilitar o processo mnemônico e, embora se equivoque em vários pontos, traz um primeiro aporte a uma abordagem tão isenta quanto possível dos acontecimentos humanos. Já na abertura, sua proposta é de falar sobre as Grandes Realizações Humanas (independente de serem gregas ou estrangeiras; quer sejam atos heroicos ou construções memoráveis), a fim de que sua memória não fique esmaecida pelo tempo. Inaugura um novo campo de estudo e é, por isso, considerado “O Pai da História”.

De “Período Clássico” chamamos ao tempo em que, durante a após as guerras em que os persas foram derrotados, as cidades-estado gregas conheceram grande prosperidade (notadamente Atenas que, além de encontrar uma Mina de Prata na Ática assumiu a chefia da Aliança dos Gregos contra os Persas através da “Liga de Delos”) – a hegemonia Ateniense cresceu demais, outras cidades-estado se sublevaram e, de um “Império de Fato”, nascido a partir da Liga de Delos, a Grécia se fragmenta e se fragiliza a ponto de ser conquistada pelos Macedônios. Período que vai de 500 a 338 anos Antes da Nossa Era.

O “Período Helenístico” já é aquele que encontra uma Grécia sob domínio Macedônio que, por um lado leva a civilização e a cultura grega a pontos remotos na África e na Ásia, por outro extingue a autonomia ou autarcia das cidades-estado. De 338 até 275 Antes de Nossa Era.

 

 

O Iluminismo Jônico

            No início do século VI Antes da Nossa Era surgiu um movimento na costa da Ásia Menor, em particular em Mileto, em Samos, em Éfeso e Halicarnasso. Movimento de busca por explicações racionais para fenômenos naturais. O mundo passava a ser visto como algo inteligível, compreensível pelo saber humano. Tales de Mileto é saudado por Aristóteles, por exemplo, como “Fundador da Filosofia Natural”. Os deuses, passam a ser vistos como também submetidos a uma lei maior, a da PHYSIS (“Natureza”, pronuncia-se “Fúsis”). Não se tornam ateus ou agnósticos, apenas buscam entender as ações dos deuses a partir de fenômenos fisicamente explicáveis, como raios e mesmo eclipses (Tales de Mileto recebe o crédito de haver predito o primeiro Eclipse registrado na História com acuidade surpreendente para o seu tempo; Heródoto o credencia com a profecia do dia e hora do Eclipse total do Sol, o que não seria possível mesmo com todo o conhecimento dos Astrônomos Babilônios – ao qual tinha pleno acesso – mas seguramente ofertou uma tão surpreendente aproximação que lhe granjeou um lugar de destaque na História da Filosofia Natural).

            A “Tabela Periódica de Elementos Químicos” dos gregos no período se compunha de quatro elementos: Terra, Fogo, Água e Ar. Tales explicava a existência de todas as coisas a partir da água; para Anaximandro e Anaxímenes (de quem não nos ficou registro escrito algum, sabemos deles por fragmentos de outros Autores como o próprio Heródoto) o Ar era a substância básica da qual todas as outras se desenvolvem; Heráclito, de Éfeso via no LOGOS e no Fogo a base de todas as coisas. De Heráclito nos restaram alguns fragmentos aforismáticos que podem ser conferidos aqui.

            Durante o Iluminismo Jônico se desenvolveu o pensamento dos Logógrafos que buscavam descrever tão acuradamente quanto lhes permitia a Razão, o Cosmos em que viviam. E foi com os logógrafos que Heródoto de Halicarnasso se instruiu e elaborou todo o seu estudo, que nos chega como “Histórias”. Nove volumes de descrições de “Erga Megala” = Grandes Feitos Humanos assim como de terras por ele visitadas ou a ele reportadas por pessoas de sua confiança.

            Num parêntese necessário, este período em que os Arianos chegaram do Norte e tomaram conta da Grécia dada a sua superioridade bélica (já tinham o domínio do Ferro, uma grande vantagem a pessoas que viviam na Idade do Bronze). Na Ática encontraram uma população menos numerosa e facilmente dominada ali fundando (ou recriando) a cidade de Atenas como nos chegou do Período Clássico. Com um grande número de escravos a realizar os trabalhos manuais podiam dedicar-se integralmente a atividades mais elevadas do Espírito, como refletir sobre o Cosmos e as relações intersubjetivas. Em Atenas, de fato, se desenvolve o mais avançado sistema político para a época, que será motivo de nossos estudos pouco mais adiante. Ao sul da Península, na Lacônia encontraram os Arianos (ali chamados de “Dórios”) uma população muito mais numerosa – a antiga Civilização Micência – que é destruída a ponto de conhecer longo período de trevas, durante o qual até a escrita é esquecida – seus moradores reduzidos à condição de escravos da Cidade-Estado de Esparta que, para manter um tão numeroso número de escravos (agora reduzidos à condição de “Hilotas”) sob controle, precisou transformar sua organização social e política na direção do militarismo, da belicosidade, que também será motivo de aprofundamento pouco mais adiante.

            O registro a ser feito neste momento é que surgiu a necessidade de um grupo de educadores itinerantes, capazes de ensinar os mais jovens a ler e interpretar os clássicos – no caso de Atenas, mesmo serem capazes de defender pontos de vista distintos e acompanhar os desdobramentos dos debates – e por toda a Hélade, era necessário compreender com a devida atenção e conhecimento o que era apresentado nas Tragédias (Festivais Teatrais Periódicos em Homenagem ao deus Dioniso). Surge o “professor itinerante” ou “Sofista”, muito odiado pelos filósofos mais conservadores da Atenas pelo potencial questionador da Ordem Estabelecida que tal saber portava consigo.

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            Tradicionalmente, atribui-se aos contatos culturais com a Babilônia e o Egito toda aquela Revolução Intelectual ocorrida na Jônia e que possibilitou o surgimento do Pensamento Crítico. Na Babilônia o Estudo dos Astros (à época Astronomia e Astrologia compunham um único conjunto de saberes, que somente se depuraram com o passar de muitos séculos) permitiam um conhecimento ímpar dando-lhes um grau de previsibilidade inédito acerca dos eventos que afetam os seres humanos no mundo (daí, em parte, as superstições astrológicas que sobrevivem atavicamente mesmo nos jornais diários desse início de século XXI). A previsão de um Eclipse Solar atribuída a Tales de Mileto, embora ainda visto como fenômeno perpassado de religiosidade, obedece a um conjunto de regras compreensíveis ao intelecto humano é o exemplo mais marcante. Os saberes antigos eram tão protegidos que havia-se de frequentar uma “Escola de Mistérios” com regras ainda mais rígidas que as dos mosteiros medievais, a fim de se apossar de conhecimentos como a Geometria (nome que significa meramente medição de terra, terreno) e da qual deriva boa parte da matemática conhecida, em especial a aritmética. O Cosmos, que segue divinizado, passa a ser inteligível a partir de regras que pairam acima mesmo dos deuses. A propósito, Pitágoras da Ilha de Samos (que viveu de 570 a 495 ANE) também frequentou aquelas “Escolas de Mistérios” Egípcias e foi com os Egípcios que aprendeu uma importantíssima norma tanto para a medição de terreno como para construção de grandes edificações: “num triângulo-retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, o famoso “Teorema de Pitágoras”, enfim, é Egípcio.

O Império Persa e a Revolta Jônica (499 – 493 ANE)

Revolta Jônica e as Guerras Médicas

            O Império Persa dominava uma vasta região de território que ia desde a Índia e o Planalto Iraniano até o litoral da Ásia Menor, a Jônia desde 540 Antes da Nossa Era. Contava com uma vasta rede de estradas e comunicações acerca principalmente de tributos pagos pelas cidades sob sua “proteção”. Vários potentados, em geral membros da Família Real Persa, eram nomeados “olhos e ouvidos do Rei”, os Sátrapas, que mantinham todo o império sob rígido controle centralizado. [será motivo de estudo em separado, em fase de elaboração, fique ligado]

            Para governar as cidades, eram nomeados Tiranos – palavra que ainda não tinha a conotação atual, de governo despótico ou cruel, simplesmente significava um Poder instituído por meios considerados ilícitos. Um Tirana que ficou famosa (e o papel da mulher, embora não esteja suficientemente claro pelos trabalhos de Heródoto, nossa principal fonte, seguramente era destacado na Pérsia) é Artemísia, que governou Halicarnasso com mão de ferro e foi uma das comandantes da Batalha Naval contra Atenas ao mesmo tempo em que, por terra, Xerxes em pessoa liderava uma vasta legião de persas por terra em direção ao coração de Atenas, sendo brevemente barrado pela brava resistência grega liderada pelos Espartanos no Desfiladeiro das Termópilas – o que entrou para a história como “Os 300 de Esparta” envolvia uma coalizão de Tebanos, Acadianos e mais de 900 Hilotas também mortos no episódio e serão motivo de aprofundamento pouco adiante.

O rei Dario instaurou um sistema centralizado de governo que, contudo, concedia grande liberdade de ações às cidades-estado por ele governada (era um período em que o Império e o Imperador constituíam praticamente sinônimos!) podiam seguir a forma de religião e frequentemente encaminhamento político que desejasse com a condição de que os tributos fossem pagos sempre em ordem e em dia (o Império Persa manteve, e vários recordes nos ficaram, registros detalhados de cada pedaço de chão sob seu domínio: estatísticas de população e tributos no topo da lista). Como formalização do contrato de vassalagem a cidade-estado vassala deveria presentear o Imperador com um pouco de sua Terra e um pouco de sua Água, assim sinalizando sua submissão e compromisso com o pagamento dos tributos exigidos.

Heródoto busca compreender as causas da desavença, o que provocou a guerra e chega à Revolta Jônica como ponto de início de toda a conflagração entre gregos e persas. Antes disso, tece longa digressão (que não leva esse nome em sua Obra, para Heródoto, não se tratava de “digressão” alguma, considerava seriamente o que atestava como fatos realmente ocorridos) acerca do rapto sucessivo de mulheres asiáticas por homens europeus e mulheres europeias por homens asiáticos “desde tempos imemoriais”, inserindo o famoso Rapto de Helena e a Guerra de Tróia nesse contexto.

A insatisfação dos povos da Jônia com alguns Tiranos gregos aliados e nomeados por Dario levou inicialmente a cidade de Sardos a se rebelar. Emissários foram enviados a Atenas e Esparta em busca de socorro. Esparta se recusa a participar da Revolta. Nesse momento é interessante enfatizar a sobrinha do Rei de Esparta, Gorgo, então com 8 ou 9 anos de idade. O Emissário oferecia somas cada vez maiores aos Espartanos em troca de sua ajuda e a pequenina criança, ao vê-lo chegar a quantias demasiado portentosas alerta: “Tio, se você não tomar cuidado, esse homem irá corrompê-lo!” Em Atenas têm mais sorte: a cidade-estado via-se como “cidade-mãe” de Sardos e sentia-se na obrigação de enviar ajuda. Enviou suas poderosas embarcações de combate e selou com isso seu destino. Um pouco antes, um emissário ateniense à Pérsia em diálogo com Dario, sem consultar a AGORA Ateniense a respeito, tomou a liberdade de ceder Terra e Água de Atenas aos Persas (o que caracterizava, na leitura dos Persas, a aceitação de Vassalagem por parte de Atenas, e os persas não compreendiam sequer o sentido de ser necessário a um emissário consultar-se com alguém a respeito de uma decisão dessa magnitude); Atenas repreendeu vigorosamente o emissário pelo gesto insensato e jamais se considerou “vassala” dos Persas; de fato, quando Dario envia um emissário a Atenas para reiterar a vassalagem, os atenienses não apenas recusam como ainda, sentindo-se insultados, mataram o emissário arremessando-o ribanceira abaixo. O mesmo se repetirá com outro emissário persa a Esparta, por seu turno jogado num poço e, anos mais tarde, o sucessor de Dario, seu filho Xerxes, sequer cogita repetir o gesto pois já conhecia o resultado...

Enfim, gregos e persas têm seu primeiro entrevero na Revolta da Jônia, com participação ateniense e, após finalmente sufocar a rebelião com mão de ferro incinerando a cidade de Mícala em 494 ANE, Dario promete vingar-se e incumbe um escravo de lhe repetir pelo menos três vezes ao dia, às refeições: “Senhor, lembre-se dos Atenienses!”

 

 

Invasões Persas em território Grego

I Choque: a batalha de Maratona

Em 490 ANE Dario envia uma missão punitiva a Atenas, comandada por seus generais Datis e Artaphernes. Uma força pelo menos duplamente mais numerosa que as forças Atenienses e de seus aliados mais próximos conjugadas. Ao longo dos anos e dada a importância histórica do Evento para toda a história Ateniense, os números foram se transformando girando de 600.000 persas segundo Platão a 200.000 persas segundo Simônides. Contra cerca de 10.000 Atenienses e aliados. Estudos contemporâneos consideram o número mais acurado ser de cerca de 25.000 persas contra 9.000 Atenienses. Quase o triplo! Temístocles, já um general e líder em Atenas, envia Feidípedes, um exímio corredor, até Esparta a lhes pedir socorro. Os Espartanos alegam-se envolvidos em festivais religiosos e se recusam a prestar qualquer ajuda aos atenienses naquele momento.

Uma estratégia é formada e a superioridade bélica da formação Hoplita tradicional em toda a Arte da Guerra Grega, logra surpreender, derrotar e expulsar o invasor persa! Embora NÃO ESTEJA nas Histórias de Heródoto, é altamente verossímil que o mesmo corredor, Feidípedes, haja percorrido os 42.195 km que separam a planície da Maratona do centro de Atenas, gritado “Nike” = Vitória, e caído morto de exaustão, dando assim origem à Corrida da Maratona, que passou a fazer parte dos Jogos Olímpicos em homenagem a Zeus celebrados uma vez por ano pelos gregos. Durante anos “ser um ex-combatente na Batalha de Maratona” era uma honra enorme que muitos Atenienses (inclusive Sócrates!) ostentavam com orgulho.

 

 

II Choque: Xerxes em pessoa comanda o ataque à Grécia

Dez anos depois da Batalha de Maratona e após muitas negociações em que diversas cidades gregas (inclusive Tebas) prestaram juramento de Vassalagem ao Império Persa, Xerxes em pessoa, o Imperador que sucedeu seu pai Dario no trono, comanda a invasão à Grécia em duas frentes simultâneas (três a se contar o estratagema dos Cartagineses haverem ao mesmo tempo invadido o Sul da Itália, então composto de colônias gregas e conhecidas como Magna Grécia): por terra ao sul em direção a Atenas e por mar, também em direção a Atenas.

Ao invés de contornar o Mar Negro com seu vastíssimo exército, Xerxes consegue, após duas tentativas, construir uma Ponte no Helesponto (tradicional linha-limítrofe entre a Ásia e a Europa). Na primeira tentativa, uma tempestade destrói os trabalhos e Xerxes ordena “dar cem chibatadas no Oceano” por desobediência. Na segunda tentativa a ponte composta principalmente por barcos obsoletos firmemente ancorados, sustenta a passagem do exército persa que Heródoto (quase com toda a certeza errando muito nas contas) estima em “mais de seis milhões de homens”. Estimativas modernas bem mais realísticas e conservadoras levam a um impressionante número de 200.000 combatentes do lado Persa (algo como quinze vezes mais que todos os combatentes gregos combinados e eles sequer o e estavam ainda!)

NESTE momento Esparta participa ativamente da Resistência Grega com raro brilhantismo. É formada uma aliança ou confederação de cidades-estado gregas sob a liderança militar suprema, por terra e por mar, de Esparta. Causa espécie que Esparta, uma cidade desde sempre focada em suas defesas terrestres tenha sido incumbida também da liderança marítima da Resistência e já nos dá uma idéia do desconforto que a supremacia real e fabulosa de Atenas causava a toda a Aliança dos Gregos.

O Oráculo e a Muralha de Madeira

Não se ingressava em qualquer empreendimento no mundo clássico sem consultar Apolo em Delfos. O Oráculo vaticina a destruição de Atenas e recomenda que fujam “até o fim do mundo”. Os Atenienses voltam a consultar o Oráculo como suplicantes e ouvem um vaticínio também devastador mas com um vestígio de esperança: “Zeus concede a Atenas uma muralha de madeira que protegerá os bravos atenienses na Divina Salamina”. A ilha de Salamina, nas proximidades de Atenas, não tinha grande destaque mas o fato de o Oráculo a ela se referir como “Divina” e assegurar proteção aos Atenienses permite a Temístocles elaborar uma estratégia defensiva: no limite, evacuar a cidade de Atenas de todas as pessoas não combatentes (mulheres, crianças e idosos) e todos os combatentes devem ir às embarcações que ele, Temístocles, havia mandado construir pouco tempo antes e que interpreta como sendo a “Muralha de Madeira” a proteger os Atenienses. Seja como for, embora as embarcações persas fossem tivessem maior velocidade e flexibilidade de manobra, são forçados a combater num estreito, o Estreito de Salamina, o que lhes reduz toda a vantagem e permite aos Atenienses uma vitória novamente surpreendente por mar usando suas embarcações como aríetes que afundam as embarcações persas.

As Termópilas

Ponto obrigatório de passagem rumo a Atenas, a única dúvida entre os membros da Coalizão, inclusive os Espartanos que ali resistiriam era se o Estreito de Corinto, um pouco mais adentrado, não seria um ponto mais seguro. Os Espartanos insistem em resistir nas Termópilas. Um dos reis de Esparta fica na cidade e o segundo rei da Diarquia Espartana, Leônidas, vai com 300 Combatentes ser a Linha de Frente de toda a resistência grega por terra.

O desfiladeiro permitia a passagem de um máximo de 20 homens enfileirados por vez por uma longa passagem espremida entre o mar e a montanha. Um grupo de Guerreiros Hoplitas bem treinados poderia resistir ali por algum tempo até a chegada de reforços e, hoje em dia, há algum consenso entre os historiadores que os Espartanos, naquele episódio, consistiam na Linha de Frente de toda uma Estratégia de Combate. Heródoto insiste e enumera a participação dos vários outros combatentes gregos aliados aos Espartanos ali presentes e, embora seja uma história de bravura inquestionável, reduzir aos “300 Espartanos” todos os mortos nas Termópilas (algo como setecentos gregos) é no mínimo uma injustiça histórica.

Não sabiam os gregos da existência de uma passagem pelo meio da montanha que permitiria aos persas cercarem a Linha de Frente da Defesa Grega de todo o resto. O traidor Efialtes passa para o lado dos persas e conduz as tropas de Xerxes pela passagem difícil pelas montanhas. Os gregos resistem nas Termópilas durante dois dias inteiros. Ao terceiro dia são cercados. Avisado com antecedência, Leônidas ordena o recuo da maioria dos combatentes pois a morte certa se avizinha. Além dos 300 que com ele estavam, cerca de 400 outros aliados gregos se recusam a regressar derrotados, preferindo a morte em combate “levando consigo quantos persas puderem”. Os 300 Espartanos com Leônidas NÃO ESTAVAM em missão suicida alguma (foi um mito contado e recontado tantas vezes em tantos idiomas que é difícil até recompor os fatos, particularmente depois de passado tanto tempo); não se contava com uma passagem pela montanha que lhes ceifasse a vida e o esforço de resistência tão cedo. Ainda assim, morreram heroicamente em defesa do que acreditavam e um epitáfio, lacônico como convém ao Espartano, foi colocado no local e vem sendo restaurado historicamente, com os dizeres “Ō xein', angellein Lakedaimoniois hoti tēide keimetha tois keinōn rhēmasi peithomenoi.” = “Vá dizer aos Espartanos, você que vai passando, que aqui, obedientes às nossas leis, jazemos” - 480 ANE

Ō xein', angellein Lakedaimoniois hoti tēide keimetha tois keinōn rhēmasi peithomenoi.”

“Vá dizer aos Espartanos, você que vai passando, que aqui, obedientes às nossas leis, jazemos”

Enfim, os persas avançam celeremente por terra após abater a resistência grega nas Termópilas e, antes que os gregos consigam, por terra, se organizar apropriadamente, incineram Atenas que fora preventivamente evacuada segundo o planejado por Temístocles. Após a vitória marítima (e subsequente apropriação de preciosos despojos persas) a Resistência Grega por Terra se fez firme, Xerxes se retira e Atenas se recompõe. Um líder do período deixa sua marca na História havendo sido eleito por mais de uma década, ano a ano, reconstruindo Atenas e transformando-a no Centro Cultural (e mesmo financeiro!) do Mundo Grego: Péricles, um dos Heróis das Guerras Médicas, que governou Atenas incontestado de 461 a 429 ANE

Peraí? Como assim “Guerras Médicas”?

Agora me recordei de um aluno que, mesmo bem treinado e instruído acerca dessa questão respondeu proposital e jocosamente num teste que “Guerras Médicas foram verdadeiras batalhas campais entre oftalmologistas e endocrinologistas pelo uso dos instrumentos mais modernos dos hospitais gregos...”

Como digo pouco acima, vamos aprofundar os estudos sobre o que hoje chamamos de “Império Persa”. De pronto, antecipo que Medos e Persas tinham a mesma origem, eram povos iranianos e que os Persas tinham a supremacia do Império quando das Guerras contra a Grécia mas os Gregos ainda falavam com respeito do tempo em que os Medos eram aqueles que estavam no comando do espetáculo por lá... Daí encontrarmos frequentes referências a “Guerras Médicas” ou “Guerras Medo-Pérsicas” contra os Gregos.

 

 

A Liga de Delos e o Império Ateniense

Enfim, Persas expulsos de território grego, perigo afastado – pelo menos temporariamente – a grande Vitória dos Atenienses sobre os Persas à frente de toda a coalizão lhes granjeou enorme prestígio que, somado às riquezas de suas Minas de Prata e despojos persas conquistados com sua vitória na Guerra lhe davam quase que automaticamente autoridade suprema sobre a Aliança Grega contra os Persas que “poderiam voltar a qualquer momento”. Hoje sabemos que isso não mais aconteceu, mas havendo sofrido quase quarenta anos de hostilidades com breves intervalos era de se esperar que os Persas voltassem a atacar.

Atenas recolhe impostos das cidades aliadas (Esparta, Corinto, Tebas, Delos...) e na Ilha de Delos fica o tesouro gerenciado pelos Atenienses para a defesa de toda a Grécia em caso de ataque externo. Atenas é uma Democracia para o interior e seu próprio povo (pelo menos os cidadãos do sexo masculino acima de certa idade, excluídas as mulheres, os estrangeiros e os escravos) mas se comporta como um Império na prática intimidando outras cidades-estado que são proibidas de abandonar a Liga de Delos.

A luta pela hegemonia sobre a Grécia elevará tensões particularmente entre Atenas e Esparta, redundará numa sucessãode guerras entre aquelas duas cidades-estado e num enfraquecimento geral de toda a Grécia que fica ao alcance da conquista Macedônica, tema do nosso próximo tópico ;)

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 07/05/2015

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