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O Jovem de Hoje e a Geração de Valores Sombrios

 

“Abatimento, desmoralização, cisões, divergências, renegação, pornografia em vez de política. Reforço da tendência para o idealismo filosófico; misticismo como disfarce de um estado de espírito contra-revolucionário (...)” – Eis como V. I. Lênin vê a situação na Rússia pré-revolucionária entre 1905 e 1917. In “A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo”

 

Uma geração de jovens egoístas e sem esperança, eis o que a Globalização e seus sequazes brasileiros produziram.

Charge do Laluff, de 2012 ilustra como a Globalização da Economia atropela os seres humanos 

 

 

Dentre os múltiplos efeitos deletérios da Globalização da Economia a desregulamentação nos relega presas fáceis a todo o tipo de espertalhão. E não apenas em termos ideológicos! Por exemplo, precisamos estar alertas a todos os momentos em que estamos despertos: ao menor deslize, ficamos presos a algo que não há como se libertar; um “ok” apressado numa tecla do telefone celular e você “está concorrendo a 50 casas, 20 automóveis, 9 hipopótamos e 5 dinossauros por apenas R$ 1,25 de tarifa ao dia”. Fornecer seus dados ao telefone a um dos “operadores de telemarketing” que ligam para a sua casa com ofertas mirabolantes pelo menos 5 vezes ao dia é uma temeridade! Além das ligações se multiplicarem eles – que usualmente operam a partir de presídios conveniados com bancos ou grandes empresas de trapaça legalizada – podem se apoderar de tais dados e não são raros os casos de roubo de identidade praticamente impossível de se conseguir de volta. Tornaram-se comuns os casos de se comprar alguma coisa que se vê na vitrine ou num anúncio de televisão e receber, em troca de mais reais e centavos do que a propaganda desinforma, coisa totalmente diferente sem possibilidade de devolução ou ressarcimento. Sim, claro, sempre há recursos aos tribunais e um levantamento recente informa que entre 80% e 90% das causas julgadas nas cortes do país giram em torno de disputas diretamente financeiras. As demais causas têm também motivação financeira, por sinal. Contrata-se um advogado (com MUITA sorte não é mais um espertalhão em busca de um atalho para o enriquecimento fácil às expensas de gente empobrecida e desesperada), entra-se com uma ação na justiça e fica-se meses, por vezes anos, na fila de espera, que os tribunais estão assoberbados com tantas causas em torno de tantas coisas. Com muita sorte, chega-se a um resultado. De repente. As decisões, seja por que for, são tomadas sem que sequer sejamos ouvidos e, com mais sorte ainda, o resultado pode ser favorável ao peticionário. Usualmente não é, mas cabe recurso e se começa tudo de novo...

 

 

O Sequestro da Esperança

 

            Sobra gente hoje se aproveitando do sequestro da esperança, tomada gradualmente do jovem; alguns pregam um retorno às velhas religiões tradicionais já conhecidas (Particularmente o Cristianismo em seus mais variados matizes e seitas...); outros que se abracem novas crenças místico-metafísicas, mas o que mais chama a atenção do jovem de hoje são as propostas de “Gerar Valor sem trabalhar”, “Empreender e não ser empregado”, “Enriquecer depressa com muita esperteza e pouco esforço atingindo fama rapidamente”, coisas assim.

            E tudo isso se não deliberadamente, pelo menos por omissão criminosa, reforça o individualismo, dificulta a conscientização da situação concreta em que se está vivendo e, mesmo quando a pregação vai na direção da materialidade mercadológica a mistificação das formas para se atingir sucesso, isto é feito em detrimento do uso da Razão. No máximo se chega a algum pragmatismo. Usualmente, nem isso.

            Examino aqui dois casos que me chegaram perto, pois amigos e parentes meus foram infeccionados com um desses tipos de coisa. Deixo para outros pontos os debates e críticas à Religião em sua forma tradicional e me debruço em duas seitas e uma terceira situação difícil de rotular; não necessariamente nessa ordem.

 

 Geração de Valor

 

“Sou a favor da concentração de riquezas (mesmo de gigantescas fortunas) desde que seus possuidores tenham feito algo para merecê-lo; seja contribuindo para aprimorar a tecnologia, tenham feito alguma importante descoberta científica ou de alguma forma hajam criado, feito, produzido algo novo. Como Steve Jobs da Apple, Larry Page do Google ou Mark Zuckerberg do Facebook (...) Mas não foi assim que os mais ricos chegaram lá; as pessoas que descrevo em meu livro enriqueceram monumentalmente por serem bem conectadas e profundamente desonestas” – Charles Ferguson in “O Sequestro da América”

"Ich bin ein Pragmatiker. Ich bin ein Mann der Praxis" - Hermann Goering no Tribunal de Nuremberg

Um GV fazendo um gesto de vitória como se tornou comum atualmente

            O inventor desse treco se chama Flavio Augusto da Silva, e se apresenta como “empresário e palestrante”; conseguiu dar um golpe de sorte e saltar de vendedor de cursinho de inglês para dono de vários e chegou mesmo a “comprar um time de futebol” nos EUA. Pesquisando para escrever aqui, descobri que há CENTENAS (MILHARES se contarmos em outros idiomas) de grupos parecidos com gente desse mesmíssimo naipe pregando a mesmíssima coisa - até com as mesmas palavras e chavões! - a jovens ingênuos...

            Tropologizando: isto me faz lembrar um livro que li há pouco, de Kevin Dutton, intitulado “The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial Killers Can Teach Us About Success”, ainda sem versão ao Português; algo como “A Sabedoria dos Psicopatas: o que santos, espiões e serial killers podem nos ensinar acerca do sucesso”. Interessante... Após séculos de Racionalismo a Globalização traz consigo ainda a exaltação do irracional em sua forma mais perversa. Mas, segundo o Autor, citando a American Psychiatric Association (APA) no manual usado por médicos no mundo inteiro Psychiatric Diagnosis and the Diagnostic Statistical Manual of Mental Disorders (Fourth Edition – DSM-IV), quem apresenta pelo menos TRÊS dos seguintes nove critérios pode ser diagnosticado como psicopata:

1) Falha em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos éticos e legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de reprovação social ou detenção (crimes);

2) Impulsividade predominante ou incapacidade em seguir planos traçados para o futuro;

3) Irritabilidade e agressividade, indicadas por histórico constante de lutas corporais ou agressões verbais violentas;

4) Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

5) Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;

6) Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter manipulado, ferido, maltratado ou roubado outra pessoa;

 7) Tendência para enganar, indicada por mentir compulsivamente, distorcer fatos ou ludibriar os outros para obter credibilidade, vantagens pessoais ou prazer;

8) Em alguns casos, incapacidade de conviver com animais domésticos ou ter apreço pelos sentimentos dos mesmos em geral;

 9) Dissociabilidade familiar, marcada pelo desrespeito ou desapreço.

            Daí o Autor parte para defender a tese de que apresentar “pelo menos em grau moderado” alguns traços de psicopatia pode nos ajudar a “subir na vida”, a “ganhar dinheiro”, a... “Geração de Valor”!

            Voltando ao Flavio. Vamos admitir, abrindo a ele uma generosa conta de crédito no quesito “honorabilidade”, que ele seja sincero em seus propósitos. Diferentemente do materialista filosófico, que sabe ser a matéria o básico, o primário e as ideias o produto de uma forma de organização específica e sofisticada da matéria, o Flavio é um materialista vulgar. Se Zoroastro dizia “E eu, que vou fazer hoje para tornar este mundo mais justo e mais belo?”, o Flavio dirá “Eu quero é o meu!” Sem hipocrisias, sem se esconder, corajosamente se erguendo em defesa da ganância mais exacerbada, do individualismo mais paranoico. “Quem não faz leva”, diz ele concluindo alguma coisa que está escrita no formato de uma poesia que leva o título “Reinventar-se é preciso”. Embora impreciso, prefere o neologismo “coitadismo” para referir-se a autocompaixão ou autocomiseração, evidentemente condenando-a e, aí sim, com precisão. Conheço pessoas que precisam de muito tempo de psicanálise para que aprendam a perdoar a si mesmas por equívocos passados. Flavio se assemelha mais ao analista de Bagé e dá um safanão: “Chega de Coitadismo!”

            E assim, de lugar-comum em lugar-comum (chavões, platitudes, just empty platitudes) ele vai se “reinventando” e conquistando seguidores: “A sua vida pode ser melhor e isso é resultado direto da sua forma de pensar e agir”; “Pense fora da caixinha”; “Sofrer por antecipação é tão insano quanto gastar por conta de um prêmio da loteria que ainda não foi feito o sorteio” – está grafado assim mesmo e depois que o Paulo Coelho se recusou a fazer correções ortográficas em seus escritos alegando que “deus pode estar sentado numa vírgula mal colocada” não vou corrigir este que talvez venha a se tornar o próximo Imortal da Academia Brasileira de Letras em companhia dos generais, políticos, banqueiros, bruxos e "empresários" que hoje a ocupam – “Quando a sua mente muda, a sua vida muda também”... E vai por aí, ocasionalmente falando sobre algo coerente e digno de ponderação – “uma mentira é mais bem aceita quando colocada entre duas verdades” sabem todos os que as contam ou ouvem – mas não vai longe nem tem valor intrínseco algum.

            Flavio se orgulha de haver sido expulso do Colégio Militar por indisciplina - conforme, talvez, o item 1 do DSM-IV... “Eu não conseguia pensar dentro da caixinha”, explica. Daí a criar a caixinha do Geração de Valor e somente considerar válidas as ideias dentro da sua caixinha foi um passo. Não há exatamente uma página dedicada a gente desesperada com o fito de prepará-las para enriquecer e ficar famosas (“com esforço e empreendedorismo”, rezam os presos aos grilhões da caixinha do Geração de Valor); espertamente usa-se de Blogs e Redes Sociais para fazer discípulos.

            Muitas coisas nos incomodam, nos deixam com a sensação de haver algo muito errado sem sabermos exatamente o quê com aquela história toda, mas algumas pistas são bastante úteis, como este diálogo que ele narra:

Uma GV me perguntou: “Flávio, eu não paro em nenhum emprego. Onde estou errando?” Respondi: “Quem disse que você tem que ter um emprego?”

A moça – brutalmente reduzida a duas letras que a prendem na caixinha do Flavio – poderia ter argumentado, por exemplo: “Meu médico, meu dentista, meu técnico em informática, meu farmacêutico, meu merceeiro...” Pelos “ensinamentos” constantes em torno disso, deduz-se que o guru GV sugere que ela encontre formas menos honestas ou honradas de pagar pelas suas despesas cotidianas sem conquistar trabalho remunerado, que se torne uma empreendedora e que pense exclusivamente dentro da caixinha do GV.

Muito bem, para “Geração de Valor” trabalhar não é recomendável. Ganhar dinheiro, muito dinheiro, é recomendável. Como conciliar as duas coisas no mundo contemporâneo? As oportunidades aos espertalhões e aproveitadores chegaram a tal ponto que se tornou mesmo complicado é ganhar a vida honestamente, trabalhando! Neste ponto o Flavio me lembra do Herman Goering que, nas transcrições do Julgamento de Nuremberg deixou abundantemente registrado o seu pragmatismo ("Ich bin ein Pragmatiker. Ich bin ein Mann der Praxis"). Apud Paul Roland - The Nuremberg Trials: The Nazis and Their Crimes Against Humanity

Paul Roland - The Nuremberg Trials: The Nazis and Their Crimes Against Humanity

Mudar o mundo? Trabalhar politicamente pelo aprimoramento das condições intelectuais e morais de nossa gente? Isso demora muito, dá muito trabalho e, se feito de maneira honesta, não dá retorno financeiro algum. Então a atividade política (Note Bem: não me refiro à atividade político-partidária, que se tornou viciada no Brasil) fica fora da caixinha do GV que precisa lidar com o mundo tal qual é. E isso tão neuroticamente que se houver transformação para melhor em algum momento abala todo o sistema que o Flavio criou para si e sua legião de seguidores. Há mesmo uma charge mostrando um grupo de pessoas com faixas e cartazes como a lutar por seus direitos em alguma causa comunitária e o rótulo em cima diz “boiada”; ao longe passa altaneiro um jovem de camiseta azul indo em direção oposta e se distanciando da manifestação com um rótulo GV estampado em cima dele. Desnecessário enfatizar o conservadorismo patológico desse tipo de postura, pensamento e comportamento.

Individualismo fóbico, ânsia patológica por fama e fortuna de maneira rápida sem entrar no mérito do que se faça. “Vender” é o conselho mais comum. O que exatamente se deve vender, fica a cargo de cada seguidor. Estatisticamente lida-se com uma improbabilidade lógica: se todos, como num dos piores pesadelos de Kafka entrassem para a caixinha do GV e se tornassem “empreendedores” onde encontrariam suas vítimas?

Como a maioria não cai no conto do Geração de Valor, as vítimas abundam. Dentro ou fora da caixinha? A seu critério...

Pessoalmente ainda acredito nos valores tradicionais que aprendi na infância: ser honesto, trabalhar, estudar, produzir, trocar ideias e coisas com outras pessoas, participar dos movimentos a favor de aprimoramentos no lugar onde moro, coisas assim... Que não Geram Valor nem tem esse propósito. Somente formam caráter. E não de psicopata.

Para concluir este trecho, cito o Doutor (o cara, além de Ph.D. é Professor de Medicina em Yale, pô!) Steven Novella cujo curso “Your Deceptive Mind: a Scientific Guide to Critical Thinking Skills” acabo de ouvir pela quarta vez. Na 6ª de 24 aulas ele explica os motivos que nos levam a abandonar nosso senso crítico quando diante de uma figura em quem projetamos alguma autoridade: trata-se de uma sobrevivência evolutiva; quando crianças, às margens de um rio cheio de crocodilos, por exemplo, e ouvimos nossa mãe dizer “sai daí correndo” simplesmente obedecemos e, se for o caso, tentamos entender depois. Se outra espécie primata eventualmente existiu antes de nós, primatas humanos, sem ser dotada desta característica de, na infância, obedecer a autoridade sem questionar, já entrou em extinção. Por outro lado, mantemos essa característica (de obedecer autoridade sem questionar, abandonando nosso senso crítico, toda a Razão e toda a lógica) mesmo em idade bem avançada e isso é uma sobrevivência que, com certo treinamento, pode ser controlado.

Recomendo, portanto, o Dr. Novella para os Jovens que desejam desenvolver o pensamento crítico, científico, autônomo e independente e o Kevin Dutton para quem deseja, pragmaticamente, Gerar Valor depressa. Não recomendo o Flavio a ninguém. Tem gente melhor e mais profunda pensando em torno dos mesmos temas com muito mais propriedade e seriedade...

Jovem, se você ainda conseguir, pense fora da caixinha do Geração de Valor...

Em 11/11/2-14 - há alguns dias na página do "GV" havia uma mensagem para "levantar o astral" que dizia algo como "não fique se queixando" ou "deixe de coitadismo": "momentos de crise trazem magníficas oportunidades. Aproveite-as"

Lembrei-me do que aconteceu em Chicago no início do Século XX (terremoto, incêndios, desabamentos, gente desabrigada, desemprego...) muitos, desesperados, ingressaram numa existência autodestrutiva de drogas e prostituição. Naquele cenário, "um GV" visionário criou uma rede poderosa para atender precisamente às demandas daquela gente, "aproveitando a oportunidade" trazida pela crise. Nome do cidadão: Alphonse Capone...

"Sou como qualquer outro homem. Tudo o que faço é atender à demanda" - Al Capone

 

 
 

Amit Goswami e o Ativismo Quântico

 

“A crítica da religião é a premissa de toda a crítica.

(...) A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o autossentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. Mas o homem não é um ser abstrato, isolado do mundo. O homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, engendram a religião, criam uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica popular, sua dignidade espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação. É a realização fantástica da essência humana por que a essência humana carece de realidade concreta. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo que tem na religião seu aroma espiritual.

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo.(...)

Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção porque a substituiu pela servidão da convicção. Acabou com a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Converteu sacerdotes em leigos porque tinha convertido leigos em sacerdotes. Libertou o homem da religiosidade externa porque erigiu a religiosidade no interior do homem. Emancipou o corpo das cadeias porque sujeitou de cadeias o coração.(...)” – Karl Marx in “Crítica à Filosofia do Direito de Hegel (Obra na Íntegra aqui)

 

 

“A ideia central do ativismo quântico é acreditar no ser humano e em sua capacidade de mudar o mundo e a si mesmo a partir dos princípios da física quântica; é contribuir para a transformação da atual visão de mundo, puramente materialista, para uma percepção baseada no primado da consciência.” Assim rezam as informações colhidas diretamente na página brasileira dos seguidores de Amit Goswami. Segundo a página (http://www.amitgoswami.com.br/sobre.html) Goswami é Doutor em “Física” Quântica pela Universidade da Calcutá. Não considerei de bom tom levar o embaraço que esse cidadão deve ser para a comunidade científica da Índia a ponto de entrar em contato com a Universidade de Calcutá fazendo a primeira pergunta que ocorre a quem não seja um total ignorante do assunto: por que ele prefere chamar de “física” uma ciência que trata de partículas que não obedecem às leis da física conhecida – há estudos científicos sérios sobre este tema, por exemplo, no CERN, a Organização Européia para Pesquisa Nuclear http://home.web.cern.ch/ - o que leva os cientistas a usar sempre a nomenclatura MECÂNICA e não FÍSICA para referir-se às partículas oriundas da fragmentação do átomo. Há mais de meio século o Gigantesco Acelerador de Partículas do CERN faz colidir os componentes básicos do átomo (como Prótons e Nêutrons) entre si e detecta as partículas subatômicas resultantes daquelas colisões como Quarks, Mésons, Leptons, Glúons, Bósons... Mesmo o diminuto Elétron apresenta características tanto de onda quanto de partícula!

Mas... Peraí: o que raios têm a ver partículas subatômicas com espiritualidade? Amit Goswami se apressa a falar – embora não explique coisa alguma com isso – “a consciência antecede a matéria”. Então é isso? 14 bilhões de existência do Universo, 4 bilhões e meio de existência do Sol e todos os objetos (planetas, satélites, asteróides, cometas, etc.) que giram em torno dele, pelo menos 3 bilhões de anos de Evolução da vida no Planeta Terra até que, há coisa de 300 milhões de anos o cérebro humano desenvolveu a consciência, e com ela a espiritualidade e tudo o mais. Milênios de pesquisa e curiosidade, séculos de luta contra o escolasticismo até a ciência se libertar e conquistar seu lugar ao Sol e Goswami joga tudo no ralo com uma frase contrariando – sem a menor prova ou evidência – milhares de anos de pesquisa séria. E encontra seguidores aos borbotões nestes tempos mais que sombrios em que vivemos...

De vez em quando aparece um invertido desses e diz – sem apresentar a menor prova concreta, mensurável ou reprodutível em laboratório – que “a consciência veio antes, a matéria veio depois”. Isso não é novo, como vimos na epígrafe, já Lênin encarava esse tipo de problema em 1905 e precisou usar parte significativa de seu tempo respondendo às tentativas de destruição da razão por parte de seus contemporâneos num de seus melhores e mais profundos trabalhos filosóficos, “Materialismo e Empiriocriticismo”.

Quer MESMO conhecer Mecânica Quântica, jovem? Não o censuro, embora não seja o meu campo de especialização, trata-se de assunto tão fascinante que eu mesmo o estudo tão avidamente quanto o tempo me permite! Em primeiro lugar recomendo ler os trabalhos publicados por Stephen Hawking, em particular Uma Nova História do Tempo (Uma Edição elegante revista, atualizada e ampliada de "Uma Breve História do Tempo, do Big Bang aos Buracos Negros") e O Universo Numa Casca de Noz na Internet, busque procurar pelo nome adotado pela corrente majoritária da pesquisa séria: MECÂNICA e não física QUÂNTICA. É um conhecimento, repito, fascinante e, embora tenha mais de meio século mal se começou a arranhar a superfície do tema em si. FUJA dos místicos e metafísicos que ficam botando espiritualismos em partículas subatômicas (seria cômico se não fosse trágico, dado o número pavoroso de gente a quem esse tipo de loucura contamina!).

O Gigantesco Acelerador de Partículas do CERN, localizado na Suíça.

Um passo a mais? Quer conhecer mais a fundo a Origem do Cosmos, como a ciência séria faz as medições, observações e aferições necessárias a ter acuidade tal que propicia à Espécie Humana manter uma série de satélites artificiais em torno do nosso planeta permitindo a localização geográfica com altíssimo grau de precisão (o famoso GPS...)? Estude, por exemplo, O Cosmos: Astronomia no Novo Milênio, de Jay M. Pasachoff e Alex Filippenko o melhor livro que já li sobre o tema. Mais um passo? Tem interesse em saber não apenas o quê, mas didática e cientificamente COMO chegamos a saber de que maneira se deu o processo da Evolução das Espécies Através da Seleção Natural? Evidentemente, o pioneiro no tema foi Charles Darwin em “A Origem das Espécies”, mas é um livro datado, ou seja, utiliza um linguajar pesadão, da Era Vitoriana... Além disso, muito, mas MUITO MESMO se descobriu depois de Darwin – inclusive de que maneira ocorrem as mutações, através de falhas raríssimas e aleatórias na sequência do DNA das plantas e animais, o que Darwin desconhecia, como todo o mundo mais em seu tempo – de maneira que recomendo mesmo, ao jovem de hoje, para este assunto especificamente, ler o mais recente e acurado livro rigorosamente científico sobre o tema A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins.

Nos dias que correm há enorme facilidade em se encontrar grupos de debate científico sérios sobre estes e vários outros temas de seu interesse. Infelizmente, como ocorre no mundo real, há uma quantidade ainda maior de puro lixo também e é justamente o lixo brilhante que atrai mais pelas facilidades e simplificações que apresenta. “Entrai pela Porta Estreita”, jovem! Não se consegue chegar a bom porto entrando pela porta larga em busca de sucesso rápido e sem esforço...

Se vivêssemos na Palestina sob ocupação Romana, ali pelo ano I da Nossa Era, eu recomendaria “aprenda latim”! Saber o idioma falado na maior potência da época é sempre uma vantagem e facilita muito o caminho. Hoje recomendo com toda a ênfase: aprenda inglês! Pessoalmente fiz o curso da Cultura Inglesa, sob a chancela da Universidade de Cambridge. 8 anos. O primeiro ano, como no aprendizado sério de qualquer idioma em qualquer Instituição séria, foi dedicado a aprender o idioma como aprendemos o idioma materno: ouvindo e falando; a seguir parte-se para a sistematização escrita e assim vai... Recomendo dar preferência a cursos com tradição em eficiência e acuidade. Nada de atalhos! Há cursos “em 18 meses” voltados a um linguajar econômico-mercantil que EM NADA o ajudarão na busca séria pelo conhecimento científico. Fuja dessas armadilhas!

Há muito mais material – e mais facilmente encontrável – em inglês do que em qualquer outro idioma do mundo, particularmente em temática científica. Encontra-se bons documentários. Cito o seriado “O Universo” que tem 7 temporadas e muitas delas estão disponíveis no Youtube, por exemplo. Em 1980 o Astrônomo Carl Sagan se tornou o maior divulgador científico do mundo com sua série “Cosmos”, produzida com sua esposa, Ann Druyan. Neste 2014 um Astrofísico que confessadamente admira e foi influenciado por Carl Sagan, chamado Neil deGrasse Tyson vem protagonizando semanalmente a reedição atualizada do projeto de Sagan, novamente produzida por Ann Druyan (agora viúva de Carl Sagan, falecido aos 62 anos em 1996) e intitulado “Cosmos: uma Odisséia pelo Espaçotempo”, que tem uma página muito legal no Facebook em https://www.facebook.com/COSMOSonTV a última expressão refere-se à concepção de Albert Einstein, segundo a qual o Espaço e o Tempo são manifestações de uma mesma coisa (nossa percepção talvez não chegue tão longe, mas intuímos que uma coisa ou pessoa está ou estará em certo lugar num determinado tempo, daí quando marcamos encontros precisamos das duas coordenadas: local no espaço e momento no tempo) mais ou menos da mesma forma que Eletricidade e Magnetismo também são manifestações de uma mesma forma de energia. O novo seriado estrelado por Tyson já está em seu 11º episódio e o 12º está prometido para o próximo dia 1 de junho. Vale a pena acompanhar.

Goswami? Misturar ciência com misticismos? Não!

Quer se afastar um pouco mais dos delírios religiosos e similares? Comece por aqui, ó:

Por Que Não Sou Cristão, de Bertrand Russel (uma resenha)

 

 

 
 

De como a Militância Política pode se tornar uma forma de Alienação

"É horrível assistir à agonia de uma esperança" - Simone de Beauvoir

"Um dia tudo será excelente, eis a nossa esperança; hoje tudo corre pelo melhor, eis a nossa ilusão" Voltaire (Jean-Marie Arouette)

 

            Essa é a pedreira mais complicada a desbastar hoje. Porque insidiosa, perversa, penetrante, cruel e brutal demais...

            Ainda há jovens sonhadores desejosos de fazer algo para mudar as coisas, para transformar o mundo num lugar melhor para se viver, jovens altruístas dispostos a qualquer sacrifício por uma causa nobre que nos transcenda – neste caso, aqui mesmo, na imanência, na vida real das pessoas reais.

            Durante mais de duas décadas o Partido dos Trabalhadores era o símbolo ou, para usar uma expressão cara a Ernst Bloch em “O Princípio Esperança”, “o ponto geométrico de convergência da Esperança dos homens”.

Fui militante até a virada do milênio. O PT chega ao poder e dá seguimento exatamente a tudo o que se vinha fazendo de errado no Brasil antes, tanto em termos de encaminhamento econômico quanto em termos de corrupção, bandalheira, subornos, enfim, o mesmo, talvez um pouco mais, do de sempre.

Percebi, como muitos outros o perceberam, a destruição da Esperança, o estelionato eleitoral, enfim; de uma longa lista cito alguns dos que conheço e com quem travei contato próximo: César Benjamin, Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Chico Oliveira, Milton Temer, Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Leda Paulani...

A maioria – e nela incluo uns 15 deputados oportunistas do PT que se bandearam para o PSOL no apagar das luzes de perderem a sigla e não poderem disputar as eleições em 2005 – continuou apoiando o partido e dizendo que “era para não desmoralizar a esquerda”. Mais ainda? Desmoralizar MAIS a esquerda do que governar para banqueiros e apostadores da bolsa jogando migalhas aos miseráveis em torno de toneladas de propaganda? Isso não é desmoralização suficiente?

Na oposição o PT se comportava como um partido de esquerda. Na situação se comporta como mais um partido tradicional de direita. Quem diz que o PT segue sendo de esquerda está enganado ou está tentando te enganar. Escrevi um tanto mais sobre isso em outros pontos, hoje em revisão. Algumas pessoas leram, se convenceram e seguem dizendo: “mas tenho de votar no PT senão a direita ganha”. Tento ser paciente: “a direita da direita, você diz?” e retrucam: “não, eu entendo e concordo com você, só que o PT é de esquerda” – aí me perdeu... Ou não entendeu ou não concorda. Ou então quem não está entendendo nada sou eu e gostaria que me explicassem: desde quando governar CONTRA os trabalhadores, PARA os banqueiros e apostadores da bolsa é uma prática de esquerda mesmo?

E os Jovens, perdidos nisso tudo...

Dia desses conheci um menino que me chamou para “Fazer uma Revolução no Brasil”. Interessante... Procurei saber mais um pouquinho. É Jovem, o que revelou no início da conversa, ingressou no PT em 2005 – o ano do mensalão! http://www.culturabrasil.org/aponthisti.htm e http://www.culturabrasil.org/apontisthiii.htm – e segue filiado. Cordialmente tento me informar melhor sobre a tal “Revolução” de que fala. Não sabe definir o termo, mas gira em torno de “apoiar a Dilma acriticamente e derrotar o PSDB”.

Eu entendo o Jovem. Palavra que entendo. Fico me imaginando nascendo na virada do século e chegando à consciência política sob os auspícios dessa turma aí, por exemplo usando a expressão “Revolução” como os cubanos a usavam nos tempos heróicos da Ilha (que começou magnífica mas, como tudo o mais nesse mundo NeoGlobalizado, também virou bosta).

SE o Jovem desejar se inteirar das coisas politicamente da maneira certa terá um trabalhão desgraçado e inglório. Eu mesmo, que não nasci ontem nem chego a me destacar por brilhantismo intelectual algum acima da média, tenho um trabalhão desgraçado! Tento colocar o que descubro aqui e abrir a debate em no Facebook. Francamente, me sinto como naquela história do colibri levando uma gota d’água de cada vez no biquinho para apagar um incêndio na floresta: “pode não adiantar muito, mas faço a minha parte...”

Também aqui, jovem, não há atalho. A busca do conhecimento nunca é fácil e o caminho para o sucesso – se um dia se o conquista – é íngreme, escarpado, cheio de obstáculos e armadilhas. E quando se conquista percebe-se ser fugaz porque já se chega a um ponto em que a Roda da Fortuna, após atingir seu topo, volta a girar para baixo e já subirá novamente que a vida é cíclica mesmo.

Deixo-o com um recado pessoal e umas dicas de leitura para aprofundamento em sua busca pelo conhecimento.

Na minha página mesmo

Aprendendo a Pensar Criticamente – Notas sobre Metodologia Científica

            O Que é Sociologia? Uma Nova Abordagem

             Sociologia - Breve Introdução às Ciências Sociais

Falsa Esquerda Alimenta o Anticomunismo

Notas sobre o Petismo Religioso

            Da Herança Maldita de FHC à Era da Traição de Lula da Silva

Década Perdida – Dez Anos de PT no Poder – Marco Antonio Villa (Uma Resenha)

Apontamentos para a História do Brasil; Primeira Parte: da Posse de Lula da Silva ao Escândalo do Mensalão, incluindo o "Troféu Berzoíni de Crueldade"

Apontamentos para a História do Brasil; Terceira Parte: queda de ministros corruptos no Terceiro Mandato Lula da Silva - exercido através de Dilma Rousseff, com uma exceção que confirma a regra

Balanço das Eleições 2014 - Lázaro Curvêlo Chaves - 07/11/2014

 

Com o meu abraço

 Lázaro Curvêlo Chaves – 26/05/2014

 

                   

 

  

 
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