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Little Rock - Nicollás Guillén

 

             Um dos maiores poetas latinos de todos os tempos, o cubano Nicolas Guillén (1902 - 1989), escreveu certa feita sobre o processo então conhecido como “neocolonialismo ianque”, hoje simplesmente como “globalização”. O poema, “Little Rock”, metade em inglês, metade em espanhol, que apresento à esquerda. À direita em versão completamente livre, que se tentou atualizar sem trair seu espírito. Fica a referência registrada.Ah, sim, conscientemente troquei "sul" por "norte" para respeitar o espírito do tempo em que o poema foi criado.

 

 
Un blue llora con lágrimas de música
en la mañana fina.
El sur blanco sacude
su látigo y golpea. Van los niños
negros entre fusiles pedagógicos
a su escuela de miedo.


Cuando a sus aulas lleguen,
Jim Crow será el maestro,
hijos de Lynch serán sus condicípulos
y habrá en cada pupitre
de cada niño negro,
tinta de sangre, lápices de fuego.

 



Así es es Sur. Su látigo no cesa.


En aquel mundo faubus,


bajo aquel duro cielo faubus de

 gangrena,


los niños negros pueden


no ir junto a los blancos a la escuela.


O bien quedarse suavemente en casa.


O bien (nunca se sabe)


dejarse golpear hasta el martirio.


O bien no aventurarse por las calles.


O bien morir a bala y saliva.


O no silbar al paso de una muchacha

 blanca.


O en fin, bajar los ojos yes,


doblar el cuerpo yes,


arrodillarse yes,


en aquel mundo libre yes,


de que hablar Foster Tonto en

 aeropuerto y aeropuerto,


mientras la pelotilla blanca,


presidencial, de golf, como un

 planenta mínimo,


rueda en el césped puro terso, fino,


verde, casto, tierno, suave, yes.



Y bien, ahora,


señoras y señores, señoritas,
ahora niños,
ahora viejos peludos y pelados,
ahora indios, mulatos, negros, zambos,
ahora pensad lo que sería
el mundo todo Sur,
el mundo todo sangre y todo látigo,
el mundo todo escuela de blancos para blancos,
el mundo todo Rock y todo Little,
el mundo todo yanqui, todo Faubus...
                              Pensad por un momento,
imaginadlo un solo instante.

Um “blues” chora sua canção lacrimosa

Na fina manhã chuvosa

O Norte branco sacode o chicote

E golpeia o mundo inteiro.

Os meninos pobres vão entre fuzis pedagógicos

À sua escola de medo.

Quando chegarem a suas classes,

Terão aulas com W. Bush, Lula e Blair

E haverá em cada caderno de cada menino

Tinta de sangue, lápis de fogo e fome...

Muita propaganda, pouco conhecimento, nenhuma verdade:

Que o neoliberalismo é bom e o comunismo mata...

Que Jesus Cristo está do lado do Capital, contra o povo, contra os pobres...

Que Deus é capitalista e o diabo é comunista

Que o FMI é a redenção e o nacionalismo a desgraça do mundo

Que os norte-americanos levam a civilização para o mundo inteiro... 

Assim é o Norte, seu chicote não cessa...

“As chances são iguais para todos!”

O favelado e o filho do milionário têm chances iguais

Se o favelado prefere o tráfico, o roubo ou o desemprego,

Para ele têm o látego, a lei, a prisão.

Que o filho do rico “naturalmente” manifesta sua vocação diferentemente:

O pai deste tem vocação para que o filho seja médico

O pai daquele tem vocação para que o filho seja empresário

E os levam a cumprir estas vocações absolutamente naturais que, claro,

“As chances são iguais para todos...” 

“As chances são iguais para todos”

Mas o menino pobre nem mesmo passa

Na porta da escola do rico

Sem ser revistado, olhado com desdém ou desconfiança ou medo

Ou prefere ficar suavemente em casa...

Ou quem sabe (nunca se sabe)

Deixar-se golpear pelo opressor até o martírio.

Ou quem sabe aventurar-se pelas ruas.

Ou quem sabe morrer a bala na “Guerra contra o terrorismo”...

Ou quem sabe assobiar ao passar uma bela mulata

Ou quem sabe baixar os olhos, sim,

Dobrar o corpo, sim,

Enroscar-se, sim,

Naquele mundo livre, sim, senhor do Norte... 

E agora, Senhoras e Senhores,

Agora meninos, velhos, peludos e pelados,

Agora índios, pashtus, mulatos, negros, asiáticos,

Pensem o que seria

Um mundo todo Norte,

Um mundo todo sangue e chicote,

Um mundo todo escola de brancos para brancos,

Um mundo todo Rock e todo Little,

Um mundo todo ianque, todo “WASP”,

O sonho de Hitler levado ao paroxismo

O nazismo mais cruel, cruento, deslavado e sujo

Contudo “simpático”, sem oposição...

Pense o que seria um mundo assim,

Imagine por um instante.

 

 

Ouça o poema em MP3

Lázaro Curvêlo Chaves - 29 de outubro de 2001 (com pequenas modificações em fevereiro de 2005)

 

 

 
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