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Manuel Bandeira - 1886 - 1968 (alguma poesia)

           Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em Recife (PE) em 1886. Depois de morar no Rio, em Santos e em São Paulo, a família regressou ao Recife, onde permaneceu por mais algum tempo. A nova mudança para o Rio levou o menino a ser matriculado no colégio Pedro II. Com 17 anos, Manuel Bandeira foi para São Paulo, a fim de ingressar na Escola Politécnica, mas já no ano seguinte (1904) ficou tuberculoso. Abandonou os estudos, passando temporadas em várias outras cidades, de clima mais propício ao seu estado de saúde. Em 1913 partiu para a Suíça em busca de tratamento. Regressou no ano seguinte, pois estava começando a Primeira Guerra Mundial. Em 1917 publicou seu primeiro livro: A Cinza das Horas.

Manuel Bandeira

 

 

 

 Nada poderia apresentar melhor o Autor que uma de suas Obras máximas, "Vou-me embora pra Pasárgada". Ouça na voz do Poeta:

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água.

Pra me contar histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

 

 

 

      Conforme esclarece o melhor crítico da obra de Bandeira, Davi Arrigucci Jr.: "A poesia de Bandeira (..) tem início no momento em que sua vida, mal saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável".

       Não participou diretamente da Semana de 22, mas seu poema "Os Sapos", lido por Ronald de Carvalho, provocou reações radicais na segunda noite do acontecimento. Mário de Andrade chamava-o de "O São João Batista do Modernismo". Bandeira exerceu diversas atividades profissionais relacionadas ao ensino. Dois anos antes de morrer, em entrevista concedida a um jornal, afirmou:

       "Tive de parar os estudos por causa da doença. Não estudei cálculo infinitesimal ou integral e isso me impediu de ler muitas coisas, inclusive a teoria de Einstein. Nas horas de ócio da doença, não me apliquei ao estudo de grego e latim, iniciados no Colégio Pedro II. Isso é quase tudo o que não fiz. E, naturalmente, sinto pelos amores frustrados por causa da doença".

        O poeta morreu com mais de 80 anos, em 13 de outubro de 1968. A perspectiva da morte foi uma constante em sua poesia e motivou um de seus conhecidos poemas:

 

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

 
 

 

        A trajetória poética de Bandeira revela a busca constante de novas formas de expressão. A Cinza das Horas, primeiro livro do poeta, traz poemas parnasiano-simbolistas. Carnaval marca o início da libertação das formas fixas e a opção pela liberdade formal, que se tornaria uma das marcas registradas de sua poesia. Bandeira é considerado o mais hábil poeta brasileiro no manejo do verso livre. Nesse livro está o poema "Os Sapos", verdadeiro manifesto de um poeta inconformado e rebelde diante das limitações da estética parnasiana. A partir de Carnaval, toda a obra poética de Bandeira constrói-se em torno de uma progressiva liberdade de expressão. O ritmo dissoluto, cujo título já indica tratar-se de um livro integrado ao espírito modernista, mostra a opção definitiva de Bandeira pelo corriqueiro, pelo cotidiano, como matéria poética.

        Libertinagem apresenta alguns poemas fundamentais para se entender a poesia de Bandeira: "Vou-me embora pra Pasárgada", "Poética", "Evocação do Recife", entre eles. No mesmo livro começam a aparecer assuntos que se tornariam freqüentes. Entre eles, o amor, a lembrança de vultos familiares e da infância, o folclore.

       "Estrela da Tarde" atesta a inquietação do poeta, sempre procurando novos recursos formais para expressar sua visão de mundo:

 

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
 
 

 

 Apesar de simpatizar com o concretismo, Bandeira advertiu: "Vamos devagar. Não aderi à poesia concreta". Sua produção, nesse sentido, resume-se a oito poemas.

        São características da obra de Bandeira: emprego do verso livre, mas não com exclusividade. Mesmo em suas últimas obras Bandeira recorre a formas fixas, entre elas o soneto; até escreveu uma cantiga medieval: uma demonstração a mais de sua liberdade de expressão... É bom lembrar ainda que verso livre não é sinônimo de ausência de ritmo; aproveitamento da fala coloquial; poesia simples, direta; aproveitamento de fatos do cotidiano; sentimento de humildade diante dos fatos; humor; e visão de amor quase sempre tangenciando o erotismo, o amor físico.

        Ele próprio afirmou: "... a poesia está em tudo - tanto nos amores quanto nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas". Bandeira não se ocupou de temas de natureza social ou de reflexão filosófica. Sua visão de mundo decorria da descoberta da poesia nos fatos corriqueiros, do dia-a-dia, ou nas experiências de vida do poeta.

        Quando se relacionam os poemas de Bandeira à sua biografia, é necessário fugir do simplismo de achar que cada poema surgiu de um dado biográfico. Primeiro, porque essa relação só pode ser feita se ancorada em informações fornecidas pelo poeta - como é o caso de "Pneumotórax" ou mesmo de "Vou-me embora pra Pasárgada". Segundo, porque a partir do cotidiano o poeta recria poeticamente o mundo, dando à sua obra dimensão universal, ou seja, o cotidiano adquire significação simbólica e passa a ser aplicável a qualquer homem.

Obra

Poesia: A Cinza das Horas (1917); Carnaval (1919); O Ritmo Dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da Manhã (1936); Lira dos cinquent'anos (1940); Belo, Belo (1948); Mafuá do Malungo (1954); Estrela da Tarde (1963); Estrela da vida inteira, incluindo todas essas obras, é de 1966 e foi lançada para comemorar os 80 anos do poeta.

Prosa: Crônicas da Província do Brasil (1937); Itinerário de Pasárgada (1954); Andorinha, Andorinha (1966).

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 09/05/2015

 
 

 

Evocação do Recife

Ouça na voz do Poeta e acompanhe a transcrição

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.
 

 

 
 
 
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