Cultura Brasileira: no ar desde 1998

 

Algumas do Mario Quintana (1906 - 1944)

             Mário Miranda Quintana (1906 - 1994), gaúcho de Alegrete, era conhecido como "o poeta das coisas simples". Após a Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando a Porto Alegre em 1936, ocasião em que foi trabalhar na Livraria do Globo, sob a direção de Érico Veríssimo. Traduziu obras de Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini e Maupassant. Seus inúmeros livros foram reunidos em um único volume, intitulado Poesias (1962), tendo, depois dessa data, escrito Pé de Pilão, Batalhão das Letras e Apontamentos de História Sobrenatural, dentre outros. Dessas publicações extraímos os trechos abaixo.

 

 

 Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

 

Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagens e está fazendo poesia.



Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

 

O que mais me comove em música
São estas notas soltas
-- pobres notas únicas -- 
Que do teclado arranca o afinador de pianos.

 

Quem fica viúvo é o defunto... 
Por que este não casa mais.

 


Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.

 


Respostas a uma entrevista: 
- Qual o maior poeta brasileiro atual? 
- Deixa disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar.

 


Cada pessoa pensa como pode ...

 


Já que existe uma "semana inglesa" aos sábados à tarde, bem poderia haver uma "segunda brasileira de manhã" para a gente curar a ressaca do domingo...

 

 
 

As sereias usam fecho ecler.

 


Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: 
basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.

 


Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sabe o que está fazendo.

 


Tenho pena da morte - cadela faminta - a que deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável. 

 


A gente deve apertar uma campainha com tanta delicadeza como se aperta o umbigo da dona da casa.

 


Despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo.

 


Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?

 


- Por que você nunca se casou? 
- Por uma simples questão de estatística: há no mundo muito mais viúvas do que viúvos. 

 


Por causa tua, quantas más ações deixei de cometer.

 


O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

 


O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

 

 

 

 
Poema da Gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

 

 
 
 
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