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O Povo Hebreu

 

 

         O povo hebreu tem o início de sua organização na Mesopotâmia. Segundo Jaime Pinsky, “Isso é contado na Bíblia e comprovado por diversas evidências. O hebraico é uma língua semita, pertencente ao mesmo grupo do aramaico e de outras faladas na Mesopotâmia, baseada em estrutura de raízes triconsonantais, uma particularidade delas. Notável mesmo é verificar a utilização de mitos mesopotâmicos entre os hebreus.” Mitos mesopotâmicos incorporados na teologia judaica, como o Dilúvio e a Epopéia de Gilgamesh, entre outros. Da Mesopotâmia os hebreus migraram para o território hoje conhecido como Palestina, sempre travando contato, usualmente belicoso, com seus vizinhos mais próximos desde que se instalaram na Região.

         Possivelmente uma seca muito grave na Região os tenha forçado a nova migração, desta vez para o Egito, ali se estabelecendo como um povo associado. Não há – fora dos textos considerados sagrados do judaísmo e do cristianismo – confirmação quanto ao fato de os hebreus de Goshen haverem, em algum momento, sido escravizados pelos egípcios. Fosse como fosse, estavam sujeitos à mesma tributação – que incluía o trabalho para o Estado – que os nativos de sua nova terra.

 

Moisés e o Monoteísmo Ético

Origens Mitológicas

 

         Segundo o sociólogo peruano José Carlos Mariátegui, os povos capazes de construir um mito multitudinário, unificador e sólido, têm maiores chances de se perpetuar. O povo hebreu construiu um dos mais duradouros mitos multitudinários de que se tem notícia.

         Conta a Tanakh(*) – que conta aproximadamente com os mesmos livros do Antigo Testamento da Bíblia Cristã – que Moisés era filho do casal hebreu Jocheber e Amram que, temendo por sua vida diante de um decreto de faraó sobre a morte dos recém-nascidos (de quem os hebreus esperavam um redentor para a escravidão em que viviam), colocou-o numa cesta de vime e o lançou a Nilo. Dali foi recolhido pela filha de faraó que o criou como se fosse fruto de seu próprio ventre, criando-o como príncipe de sangue real egípcio. Por algumas circunstâncias acaba descobrindo sua origem e passa a lutar pela libertação da escravização de seu povo, sendo banido por faraó, dali se dirige à região de Midiã, encontra o sacerdote Jetro e se casa com sua filha Zípora. Ao pé do monte Sinai vê uma sarça que arde em chamas sem queimar, fica curioso, se dirige ao local e recebe a voz do “Deus sem Nome” decretando que volte ao Egito e liberte seu povo da escravidão.

         De volta ao Egito, realiza uma série de milagres inclusive lançando uma série de pragas sobre o Egito (nuvens de gafanhotos, chuva de granizo em chamas, o rio Nilo se converte em sangue por sete dias e assim por diante) que acabam por “abrandar o coração de faraó” que se decide por permitir ao povo hebreu sair do Egito e voltar à Canaã, “terra onde emana Leite e Mel”.

         Subindo ao Monte Sinai, ficando o povo no sopé à sua espera, Moisés medita e ergue profundas preces por quarenta dias. O povo, fatigado de esperar no deserto, retorna às crenças egípcias populares construindo ícones de deuses animais e se propõe a voltar ao Egito. No entretempo, o “Deus sem Nome” fala a Moisés dando-lhe as Tábuas da Lei com os Dez Mandamentos. Ao descer, enfurece-se com a idolatria e falta de fé de seu povo, arroja sobre os hereges as Tábuas da Lei, sobe novamente ao Monte e obtém novas Tábuas, desta vez escritas “pela própria mão de Deus” e decide que o povo seja punido com 40 anos de peregrinação no deserto até a chegada a Canaã – havia um caminho bem mais curto.

* A Tanakh contém 24 livros e é basicamente equivalente ao Antigo Testamento Cristão. Divide-se tradicionalmente em três grupos de livros: A Torá ou Pentatêuco; os Neviim ou Profetas e os Ketuvim, 11 livros conhecidos como "Escritos".

 

Versão Acadêmica Oficial

            Segundo Amy Jill Levine, Doutora pela Universidade de Duke e Professora da prestigiosa “Vanderbilt University Divinity School” reconhecidamente a maior Autoridade no assunto, no curso sobre o Antigo Testamento da coleção “Great Courses”, o fascínio da civilização e cultura hebraica não nos permite olvidar que, quase com toda a certeza, os Patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) e mesmo Moisés não eram pessoas reais, mas construções mitológicas poderosas para a formação do passado histórico de um povo orgulhoso, sendo suas sagas preciosíssimas para conhecermos a fundo o ideário em que se insere até hoje o povo hebreu.

 

 

 

 

Versão Gnosiológica

 

         Segundo Édouard Schuré em sua obra monumental “Os Grandes Iniciados”, Moisés foi Iniciados nos Mistérios do Egito chegando a ascender ao cargo de Sumo Sacerdote em Heliópolis. Seu nome de batismo seria Osarsiph – derivativo de Osíris, deus de Heliópolis. Ao contrário da versão mais corrente, Schuré defende a tese de que o faraó em sua época – note que seu nome jamais é mencionado nos textos sagrados – não era Ramsés II, mas Amenófis III. Teria conhecido pessoalmente Amenófis IV, que trocou seu nome para Akhenaton ao instituir a primeira religião monoteísta do mundo. De fato, o Salmo 104 é uma adaptação poética do “Hino ao Sol”, de Akhenaton.

Não temos como aferir se Osarsife era filho legítimo ou adotado pela princesa. Os registros históricos são conflitantes a este respeito e há muito de fundamentalismo obnubilando as pesquisas.

         Um relato recorrente na Tradição dá conta de que, enviado a inspecionar uma construção em andamento em Goshen, Osarsife testemunha um soldado egípcio vergastar sem compaixão um trabalhador hebreu. Tomado de ira – a sede de justiça sempre foi uma característica dos Grandes Iniciados – derruba o agressor, toma-lhe a arma e o mata. Este gesto o obriga a exilar-se em Míidiã.

         Jetro era um homem de pele negra - séculos atrás os etíopes eram os faraós do Egito – que guardava as tradições, sendo ele mesmo um Iniciado nos segredos de Ísis e Osíris. Na região de Midiã gestava-se o “culto ao Deus único”. Passando pelas provas necessárias à expiação de seu crime, Osarsife “renasce” recebendo então o nome de Moisés.           

 

Êxodo

 

         “Subir ao Monte” é sempre uma referência à Iluminação. Iluminado, Moisés retorna ao Egito e consegue a retirada do povo hebreu prometendo-lhes nova morada própria, “numa terra onde mana leite e mel”. A migração em massa dos hebreus em direção à Palestina é conhecida como Êxodo. “Viagens” Hollywoodianas à parte, não há relato independente dando conta de haver ocorrido uma migração em massa de escravos fugidos do Egito, menos ainda de tropas a perseguí-los ou um faraó afogado nas águas de um Mar Vermelho “miraculosamente” aberto apenas para a passagem dos fugitivos. Constante somente dos relatos dos livros sagrados, Jill Levine insere essa história também no campo da mitologia... As Tábuas da Lei, com os Dez Mandamentos, sintetiza brilhante do Código de Hamurábi, confirmando mais uma vez a influência das culturas mesopotâmica e egípcia na formação ética do povo hebreu.

         No capítulo dedicado a Orfeu, o já citado Édouard Schuré informa que Dionísio realizou milagres como abrir o mar para que o povo passe a seco e tirar água de uma pedra no deserto apenas batendo seu bastão nela. Dionísio também teria sido encontrado num cesto flutuando sobre as águas. A mesma história se repete no caso de Teseu, Perseu e uma série de outros personagens mitológicos, deixando clara a interação entre os povos do Oriente Médio e Mediterrâneo nos primórdios da Civilização Clássica.

         Os termos “hebreu”, “israelita” e “judeu” são usados no senso comum como sinônimos. De fato, “hebreu” é uma expressão derivada das línguas mesopotâmicas para designar o povo originário “do outro lado” do Eufrates. Quando deixaram o Egito e se instalaram em Canaã após subjugar os povos que ali viviam, passam a se chamar “israelitas”, principalmente após o reinado de Davi. O termo “judeu” refere-se a um povo e uma religião, aquela instituída por Moisés há mais de 3.000 anos. Em nossos dias, embora seja teoricamente possível a conversão ao judaísmo, esta é de rara a inexistente na prática. O fator “sangue” ou “descendência” pesa muito neste caso.

            O “profeta” hebreu, na prática era mais um líder e conselheiro espiritual, despido da conotação oracular que o termo adota na Civilização Greco-Romana.

 

Juízes

 

         Com a morte de Moisés e o ingresso dos hebreus na Palestina, tiveram de travar várias guerras contra os povos que ali viviam, principalmente os filisteus. Aquelas lutas foram conduzidas inicialmente pelos Juízes, sendo o primeiro deles sucessor de Moisés, Josué.

         Os filisteus e outros habitantes da Região conhecida como “Terra Prometida”,  as margens do Rio Jordão, foram subjugados inicalmente por seu primeiro Juiz, Josué, a ele se seguindo vários outros, dentre os quais se destacam Sansão e Samuel. A Samuel o povo hebreu pedia um rei, a exemplo da forma de governo existente entre outros povos da região em seu tempo. O “deus sem nome” dos hebreus, através de Samuel, prevenia contra o reinado, que traria um jugo extra ao povo hebreu, no entanto, sem uma centralização daquela natureza, não se teria uma Nação no sentido clássico do termo.

 

Reis

 

Tradicionalmente, se diz que o primeiro rei hebreu foi Saul. Durante o seu reinado o povo hebreu foi politicamente unificado. O reinado de Saul foi marcado por uma série de campanhas militares contra os filisteus e demais povos vizinhos. Naquele período ocorreu ainda um enfraquecimento político do Egito e dos Estados Mesopotâmicos, favorecendo o fortalecimento do Estado Hebreu.

         Com a morte de Saul subiu ao trono Davi, sob cujo reinado o Estado de Israel de fato se consolidou. Toda a palestina foi subjugada e Jerusalém proclamada capital do Reino. Sob seu reinado criou-se um exército real e permanente – contando inclusive com mercenários estrangeiros; organizou-se uma forte burocracia estatal e um rigoroso sistema de impostos dotando ainda a monarquia de um caráter sagrado. Amy-Jill Levine, aqui novamente, nos convida a refletir e informa da frustração em não encontrar confirmações arqueológicas – ou mesmo relatos de outros povos – acerca da existência de Davi, avençando a hipótese de haver sido o equivalente mitológico hebreu do que o “Rei Arthur” foi para os povos britânicos...

         Segundo o já citado Jaime Pinsky, “...mesmo no seu momento máximo, o reino de Davi era insignificante se comparado aos grandes impérios egípcios, babilônicos ou hititas. Mas era o máximo que se edificava na região em séculos. Aos olhos dos hebreus, pouco mais que beduínos, então, aquilo devia ser considerado uma coisa de outro mundo e Davi passa a ser glorificado em prosa e verso. Lods lembra bem que a primeira referência de caráter messiânico entre os hebreus foi a esperança da volta à idade de ouro dos tempos do rei Davi.”

         Passando a monarquia hebraica a ser vitalícia e hereditária, com a morte de Davi sobe ao trono seu filho Salomão, que se destaca por sua habilidade política. Hábil diplomata, travou contato com os Sacerdotes Egípcios e Fenícios logrando, com o fruto de saques, pilhagens, impostos e comércio com povos da região, a construção de um grande templo. O famoso Templo de Salomão.

         Jerusalém como cidade sagrada e capital do Reino tinha agora no Templo o mais sagrado de todos os lugares do mundo para os judeus: a nova morada para o seu deus.

 
 

 

Cisma

 

 

         Os elevados tributos cobrados por Salomão trouxeram enorme insatisfação ao povo, principalmente às dez tribos do Norte que se separaram sob a liderança de Jeroboão, formando um Reino independente, o reino de Israel, com capital em Samaria. As duas tribos do Sul que permaneceram fiéis a Salomão, formaram o Reino de Judá, com capital em Jerusalém. O Cisma enfraqueceu os hebreus, tornando-os presa fácil aos Estados expansionistas do Oriente Próximo.

 

Diáspora

 

         Diante das muitas revoltas da população hebraica ao domínio romano no ano 70 d.C. estes destruíram novamente Jerusalém e o Templo – do qual só resta uma parede, o Muro das Lamentações. Sob o Imperador Romano Adriano os judeus foram expulsos da Palestina e proibidos de retornar àquela região. A este episódio dá-se o nome de Diáspora (dispersão).

         Após as atrocidades sofridas pelos judeus na Europa ao longo dos séculos, culminando com o grande genocídio perpetrado pelos nazistas, que mataram mais de seis milhões de judeus, estes conseguem junto à Organização das Nações Unidas, em 1948, a criação dos estados de Israel e da Palestina. Sob a égide da ONU e apadrinhamento dos EUA, os judeus recriam o seu Estado, mas jamais cumpriram a determinação da criação do Estado da Palestina, um dos principais motivos de a região viver em constante estado de guerra civil.

Fronteiras de Israel segundo decisão da ONU em 1948

 

Situação prática que se prolonga por vários anos

Lázaro Curvêlo Chaves - julho de 1999

Atualizado em 19 de janeiro de 2015

Entendendo a agressão de Israel e EUA ao povo Palestino
 
 
 

 

Dicas Para Aprofundamento

 
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