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O Que é Sociologia? Uma Nova Abordagem

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“Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos; Estendi meus sonhos sob seus pés; Caminhe suavemente porque você está pisando em meus sonhos.”

“But I, being poor, have only my dreams; I have spread my dreams under your feet; Tread softly because you tread on my dreams.”

William Butler Yeats - 1865 –1939 

 

 

Primeira Parte – O pensamento científico

 

            A Sociologia é uma Ciência Social – ênfase, neste instante, à palavra Ciência – portanto nos cabe delimitar este campo.

            O pensamento científico difere de outras formas do pensar (mitológico, religioso, mágico-primitivo...) por obedecer a uma série de normas consagradas ao longo de séculos de estudos levados a cabo por uma imensa quantidade de seres humanos nas mais diversas latitudes e longitudes deste Planeta.

            Que fique claro: outras formas do pensar são também válidas! O pensamento científico não busca, a princípio, invalidar qualquer das outras formas de pensar – a exceção ocorre quando um encaminhamento diferente do raciocínio entra em rota de colisão com o pensamento científico que, hoje, consegue se erguer em sua própria defesa – não era assim há quinhentos anos, claro...

            Neil De Grasse Tyson introduz a série “Cosmos, Uma Odisséia no Espaçotempo” elencando as características básicas do pensamento científico assim:

1 – Questione autoridade.

2 – Teste suas ideias através de experimentação e observação.

3 – Elabore hipóteses ou teorias e teste seus postulados na prática. Aprofunde aqueles que se comprovarem corretos e descarte os incorretos.

4 – Questione tudo, mesmo a sua própria percepção.

            Com esta pequena série de regras básicas, temos a fundamentação de séculos de pesquisa científica sistematizada de maneira simples; interessante que, ainda que as mesmíssimas regras sejam aplicáveis também às Ciências Sociais, até o presente, somente as Naturais chegaram a este ponto com desenvoltura, por uma série de motivos que vamos analisar adiante.

 

Segunda Parte – Entendendo e Aplicando a Dialética

 

            Com os cercamentos de terras na Inglaterra e o desenvolvimento da mecanização, a Classe Trabalhadora brota na história como fenômeno social digno de análise e o melhor instrumental para levar a cabo esse estudo é a Dialética Hegeliana conforma interpretada por Karl Marx.

            Inicialmente, rebeliões incipientes e mesmo irracionais como a dos Ludditas na Inglaterra (os famosos “quebradores de máquinas”) e dos Sabotadores, na França (que pegavam o tamanco, “sabot” em Francês e metiam entre as engrenagens das máquinas) que viam nas máquinas as inimigas do trabalhador, pois que eram capazes de levar a cabo tarefas mais elaboradas e engenhosas, de maneira mais rápida e eficiente que o labor físico humano. Tão logo os donos das máquinas conseguiram elaborar leis condenando à morte por enforcamento a qualquer ser humano que quebrasse uma máquina de uma fábrica ficou claro que o inimigo não era a máquina, mas seu proprietário que, além do mais, dispõe de meios judiciais e policiais para proteger seu patrimônio dos clamores da gente.

            Hegel (que havemos de estudar mais longamente em outra parte) elaborou um trabalho riquíssimo, centralizado principalmente em “Fenomenologia do Espírito” e em sua “Lógica” e, neles, explicita algumas coisas relevantes ao conhecimento do ser humano em sua dinâmica existencial, vejamos rapidamente dois aspectos por ele analisados:

_ O Povo preexiste o indivíduo. Deveria parecer óbvio não fossem séculos de confusão: usamos um idioma que foi engendrado muito tempo antes de nascermos, temos uma herança genética e cultural que preexiste a nós em milênios. O indivíduo é um caso particular de um fenômeno muito maior, e Hegel insistirá obstinadamente neste ponto: O Povo, A Nação. Atualmente há Ciências Humanas dedicadas ao estudo do indivíduo em suas particularidades e idiossincrasias, como a psiquiatria, a neurologia, a psicanálise, a própria medicina...

_ O Movimento está no cerne da vida. Citando diretamente um dos aforismos de Heráclito de Éfeso, a quem Hegel resgata: “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Você escreve um diário? Se escreve, provavelmente se reconheça em alguns trechos e se estranhe bastante em outros, tanto mudamos cada um de nós ao longo da vida. E fotos? Pegue uma foto sua do tempo de criança e compare com uma atual: quanta diferença... Um exemplo político: PT e PCdoB estavam claramente à Esquerda em 1989 e chegam a 2014 à Direita do PSDB. Pior: de bastiões da Ética os ex-esquerdistas batem todos os recordes de corrupção e incompetência no trato da coisa pública em todo o período republicano brasileiro, chegando mesmo a constituir organizações criminosas em seu seio!  

 

 

 

Terceira Parte – Entendendo a Filosofia Positiva

 

            Quando estudei Engenharia, aprendi um cálculo que me permitia saber que quantidade de gelo de um iceberg fica emersa e que quantidade dele fica submersa. Teria de me debruçar sobre meus cadernos para me recordar adequadamente dos cálculos, mas me recordo bem do resultado e acabo de testá-lo com sucesso num copo com água (já explico...). Apenas 1/9 do gelo fica EMERSO, por cima da linha d’água; 8/9 ficam SUBMERSOS, abaixo da linha d’água. Ora, a Dialética lida primordialmente com a Essência, pois as coisas estão em processo de devenir perpétuo, de vir-a-ser. Você NÃO-É muito mais do que É (engraçado isso, não?). Em termos não filosóficos: o que você aparenta ser constitui um breve aspecto fenomênico de todo o seu potencial de SER. O que você “Não-é”, ou “É em potencial” constitui muitíssimo mais do que as aparências fenomênicas! Eu não tenho acesso direto a seus sentimentos, pensamentos, emoções, angústias, pesares, alegrias, desejos... Somente ao que você aparenta ser, que é, por assim dizer, menos de 1/9 de tudo o que você pode realmente ser.

            Como a Dialética lida principalmente com algo que NÃO-É aparentemente perceptível, ficou conhecida como “Filosofia Negativa”.

            Também os conservadores precisavam construir a sua compreensão da realidade e Augusto Comte com seu “Curso de Filosofia Positiva” centralizou sua enorme atenção nas aparências fenomênicas, nas coisas tal qual são, desprezando seu potencial. Há muito de humanismo em se buscar preservar coisas que precisam mesmo ser preservadas (penso neste momento em valores morais, que são caros aos positivistas e, de fato, merecem um trato melhor do que lhes deu uma leitura e uma prática apressadas da Filosofia Negativa); há contudo falhas em se perceber que a manutenção das coisas como estão – com desigualdade social crescente – até mesmo a moralidade se perde...

            O Pecado Capital do Positivismo, portanto, reside em se buscar manter as coisas como estão ou, na melhor das hipóteses usar um gradualismo que beira a paralisia.

            Cuidado! Assim como não devemos confundir o Materialismo Filosófico com o materialismo vulgar, em síntese: Filosoficamente, sabemos que a matéria constitui o primário, preexiste à consciência; foi necessário a você nascer onde e como nascer, ter a criação e os contatos que teve ao longo da vida para portar as ideias que porta hoje. Já o materialismo vulgar almeja “ter coisas” apropriar-se de bens materiais, é outra coisa... Da mesma forma, não devemos jamais confundir a Filosofia Positiva de Auguste Comte com “O Poder do Pensamento Positivo” ou outras vulgaridades de autoajuda de quem escreve livros daquela natureza, por favor... ;)

            Outra coisa de altíssima relevância é conhecermos a diferença entre o Radicalismo e o Extremismo. Karl Marx, na “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” informa: “Ser Radical é atacar o problema em sua raiz; ora, para o homem, a raiz é o próprio homem!” Já o extremismo ataca os problemas sem estudar suas causas ou suas raízes. Exemplificando: tenho luzes acesas e as quero apagadas. Como sou Radical, estudo a Raiz da questão: há uma fiação embutida a conduzir eletricidade para a lâmpada que me ilumina e quem fez a instalação teve o cuidado de instalar um interruptor para que eu possa, se assim o desejar, ir à Raiz do fenômeno e interrompê-lo simplesmente pressionando o interruptor, processo que posso reverter se desejar a lâmpada acesa novamente. Um extremista, ao ver uma lâmpada acesa e desejá-la apagada, pega um porrete e a destrói, sem buscar estudar minimamente o fenômeno. É realmente uma tragédia o sucesso da propaganda em assemelhar o Radical ao Extremista. A tal ponto que vemos em várias partes pessoas diferentes se referirem a loucos ensandecidos capazes de amarrar bombas em seu próprio corpo e com elas explodirem a si mesmos e outros ao redor como “radicais”. Não o são. São extremistas. No vale-tudo para afastar o estudioso do pensamento Radical até assemelhar-nos com loucos ensandecidos faz parte da estratégia midiática. Que triste...

 

Quarta Parte – Durkheim e Weber

 

 

Emile Durkheim, no meio de uma vasta e preciosa obra sociológica, propõe em “As Regras do Método Sociológico”, “analisar o Fato Social como coisa”. Detêm-se longamente explicando o que se entende por Fato Social (coletivo, exterior ao indivíduo, etc.) e postula um distanciamento daquele objeto de estudo assim construído. Se fosse possível, talvez fosse desejável. Ou não...

O estudioso do Fato Social é... Humano. O Fato Social é... Humano. Há, portanto uma identidade, pelo menos parcial, entre o sujeito e o objeto desse estudo e a objetividade almejada não pode ser atingida. Há mérito na proposta, evidentemente, que visa atingir uma objetividade desejável a toda Ciência digna desse nome. Durkheim abre uma picada na selva do conhecimento humano e ela segue aberta; quem sabe com os novos avanços tecnológicos se possa atingir uma objetividade desapaixonada? Traria isso bem ou mal para a Humana Espécie? Quem estiver vivo quando se o conseguir, saberá.

Max Weber merecerá nova visita de nossos estudos no futuro. Dotado de uma erudição espantosa, dominava todos os idiomas conhecidos na Europa e mesmo alguns asiáticos. Seu trabalho enciclopédico “Economia e Sociedade” é motivo de estudos decodificadores ainda hoje nas mais avançadas universidades do mundo e há grande mérito em tudo o que fez.

Karl Marx constituía sua “Nêmese” e contra ele escreveu rios de tinta. Sendo o mais valoroso dos adversários burgueses do pensamento marxista, é o mais citado e comentado sempre que se busca contraditar o pensamento alternativo ao Modo de Produção Capitalista.

Sem me estender muito em Autor tão rico, tão profícuo, detenho-me de pronto na Obra que mais incomoda e que recebeu várias traduções, inclusive com títulos distintos, sendo o mais conhecido este: “Ciência e Política: Duas Vocações”. Trata-se de um trabalho pequeno (130 páginas, comparadas com as mais de 4.000 páginas de “Economia e Sociedade”) mas que se coloca como barreira intransponível ao conhecimento em Ciências Sociais no Brasil. Independente do que Weber desejasse dizer com esse trabalho – e creio mesmo que a interpretação dos intelectuais conservadores brasileiros seja bastante acurada – ao separar a esfera do exercício científico (quase como um diletantismo a ser exercido numa torre de marfim, longe da realidade) daquela da prática política inviabiliza a aplicação da terceira característica do pensamento científico como sistematizado por Tyson logo ao início destas notas. Rememoremos? “Elabore hipóteses ou teorias e teste seus postulados na prática. Aprofunde aqueles que se comprovarem corretos e descarte os incorretos.” Para os intérpretes brasileiros de Weber, cuja obra citada é obrigatória antes de qualquer tentativa de se pensar a sociologia ou a política, esta característica é incompatível com o método proposto por Weber, portanto deve ser descartado da própria concepção de ciência! Elaborar teorias, sim, pode-se e deve-se. Praticar a política também pode-se e deve-se. Contudo, para Weber e seus intérpretes brasileiros, uma coisa impede ou bloqueia a outra: se você opta por ser cientista social, não pode se dedicar à prática política e vice-versa.

Não há proibições formais, não há teorias conspiratórias nem complots de qualquer natureza. Para a Academia, você somente conseguirá avançar em seus estudos quando “compreender” que as dimensões da Teoria e da Prática devem ser estanques. Se não “compreender”, não vai preso, não será perseguido nem conseguirá concluir uma tese qualquer, só isso.

Mais ou menos como dizer a um médico: “Há uma crise de Ebola na África e você deve estudar o vírus, a progressão da doença, seus efeitos nos seres humanos mas deve compreender que não pode agir, de maneira alguma, nem mesmo para buscar uma cura”. Quem “compreende” isso, avança e pode defender suas teses em medicina. Quem não “compreende” não consegue sequer se graduar!

Qual a sensatez ou lógica nisso? Debruçando-me de vez em quando sobre essa questão há aproximadamente trinta anos chego sempre – talvez tristemente... – à mesma conclusão: “tira esse livro da minha frente!” Se não posso estudar soluções práticas para os problemas concretos da minha gente, de que me servirá o conhecimento? Se Weber propõe estudar sem agir (ou agir sem estudar?) como a Academia o interpreta no Brasil, há algo de muito errado e, enquanto eu não compreender prefiro me afastar DESTA obra dele. Há outras muito boas, que sei apreciar, naturalmente. Como é interpretada hoje, a Academia, ao impor aquela obra como anteparo, BLOQUEIA o conhecimento, pois vetar a utilização prática da Teoria Política!

 

 

 

Quinta Parte – Conclusão (Por Enquanto)

 

 

            Antes de mais, elogiar com o maior entusiasmo de que sou capaz a obra de Weber com que mais me identifico: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Nela, Weber busca compreender não apenas os motivos que levaram o capitalismo a surgir na Europa (e não na China ou na Confederação Asteca, por exemplo) como aprofunda a questão de serem os países que têm uma maioria de moradores professando a fé protestante aqueles que mais prosperaram no capitalismo. Tem a ver com a cisão entre a fé e as obras inicialmente postulada no seio do cristianismo e rechaçada pelo protestantismo, liberando seus praticantes para o acúmulo capitalista sem o gozo dos frutos dessa conquista, tema que havemos de aprofundar oportunamente.

            Ao concluir, aproveitando o Momento Histórico que vivemos quando finalmente vemos um caminho de saída da dominação de doze anos de criminosos que sequestraram o poder no Brasil, trago algumas dicas de leitura:

“Às Portas da Revolução”, de Slavoj Zizek – traz os escritos de Lênin às vésperas de Grande Revolução Socialista de Outubro mas traz principalmente um vastíssimo “posfácio” onde critica vigorosamente o que chama de “Denkverbot”, a proibição de pensar em alternativas para essa “Jaula de Ferro” do capitalismo em torno de cujas grades temos de nos contorcer sem fim. De que adianta meramente falar sobre autores revolucionários ou mesmo sobre atitudes ecológicas sérias se isso somente serve, em última análise, à manutenção de um status quo que a todos escraviza?

“Eros e Civilização”, de Herbert Marcuse – uma interpretação filosófica (em verdade marxista) do pensamento de Sigmund Freud. Contrapõe o Instinto de Vida a que chama de Eros e cito aqui uma das frases mais profundas do livro que haverei de resenhar em tempo: “a beleza da mulher, promessa de felicidade, é um atentado vivo ao princípio de desempenho da sociedade afluente”. Contra Eros, o Thanatos, o Instinto de Morte da Sociedade Industrial, Unidimensional, de Pensamento Único tão dominante, abrangente e omnipresente que há mesmo quem ainda se iluda vivermos hoje um tempo “sem ideologias”. Há! “SEM ideologia?” Digo que este é o período mais fortemente ideológico da história humana desde a década de 30 do século passado. A pequena diferença é que naquela época havia ideologias diferentes se contrapondo: liberalismo, fascismo, comunismo... Hoje há uma única, hegemônica e tudo dominante: servir ao deus laico “dos mercados”. É até difícil encontrar uma nomenclatura apropriada para uma ideologia tão disseminada que se torna mesmo invisível (daí a confusão).

Que haja uma quase universal concordância em que a meta suprema da vida humana no mundo deve ser estar a serviço “dos mercados” e não se reconhecer nisso uma poderosa e brutalmente deletéria ideologia é um descuido imperdoável senão uma infâmia!

 

Razão e Revolução”, Herbert Marcuse mergulha a fundo na “Lógica” e na “Fenomenologia do Espírito”, trazendo a Dialética Hegeliana em sua forma “pura” a nosso conhecimento com seu raro brilhantismo.

“O Lucro ou a Pessoa”, de Noam Chomsky – cito este, mas poderia citar quaisquer das muitas obras de Noam Chomsky, o mais importante intelectual vivo, com sua verve crítica e espinha inquebrantável no embate contra o Neoliberalismo e a Globalização, os males do mundo contemporâneo.

            Fica aqui o convite a debatermos este e outros temas de seu agrado que hoje, ao nos libertarmos finalmente da Era da Mediocridade no Brasil – mais um instante no tempo e já passa... – podemos novamente, livremente, debater temas relevantes à nossa cultura e nossa civilização.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 17/11/2014

                 

Confira ainda:



Sociologia - Breve Introdução às Ciências Sociais

Aprendendo a Pensar Criticamente – Notas sobre Metodologia Científica

 

Leitura Mencionada/Indicada

Cosmos - A Spacetime Odyssey - Neil DeGrasse Tyson

 

 

 
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