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Ode ao Burguês nº 2 (Homenagem a Mário de Andrade)

Avant Propos

    Dia desses viajando pela rede encontrei uma página interessantíssima sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 e Mário de Andrade e lembrei-me de outros tempos e outros pensamentos. O modernista, na década de 20, compôs uma página brilhante chamada "Ode ao Burguês", que transcrevo abaixo e me inspirou uma releitura buscando ser fiel a toda a estética modernista de desrespeito às regras de metrificação, rima ou ordem ou, caso assim se o deseje, obedecendo àquelas criadas pelos modernistas a quem admiro demais. Tem aquela do Oswald de Andrade (sem parentesco e muita rivalidade) com Mário de Andrade, por exemplo, que diz: "Quando o português chegou, numa tarde fria, vestiu o índio. Que pena! Se tivesse chegado numa manhã de Sol, o índio teria despido o português."

Artistas do Movimento Modernista de 1922. Ao alto, à esquerda, Mário de Andrade (Clique para ampliar)

    Não há acordo possível com a burguesia. No Brasil contemporâneo só há duas classes sociais com as quais ainda consigo dialogar com alguma desenvoltura, a classe trabalhadora e a elite intelectual.          Lumpemproletariado está fora do meu alcance dialógico. Pseudo-intelectuais também. Políticos burgueses idem. Mas de todas as categorias sociais possíveis é a burguesia que menos inspira confiança, pelo que fica claro, tanto no poema excepcional do Mário de Andrade quanto nesse macaquear meu logo abaixo... 

 

 

Mário de Andrade por Lasar Segall 

 
Ode ao Burguês nº 2

Lázaro Curvêlo Chaves

 

Eu odeio burguês!

Burguês-centavos-contados.

Indigesto burguês brasileiro.

Classe nédia, adiposa, delicada,

Classe sem classe, burguesia medrosa.

Eu odeio burguês!

Burguês-medo, burguês-cautela.

Burguês fáustico, pomposo e circunstante.

Bela aparência, completamente oca.

Burguês é sepulcro caiado.

Burguês chora ao ver naufragar o Titanic

E manda à polícia o pedinte à porta do cinema.

Porque no Titanic morreram burgueses.

Poucos, mas todos burgueses.

E mendigo não compreende essas coisas...

Eu odeio burguês!

Burguês cheio de regras,

Cheio de nove-horas,

Burguês que "trabalha por amor"

Depois apresenta a conta:

"_ É que estou de saída para a Europa..."

"_ É que tenho de trocar os fru-frus da cortina da sala..."

"_ É que vou a Miami comprar orelhas de Mickey Mouse para minha filha..."

Vai, burguês idiota!

Vai botar orelha de rato imperialista no teu rebento!

Burguês fútil, burguês frágil, burguês covarde, burguês de nada!

"Ouviram do Ipiranga às margens poluídas,

Do herói cobrado – coitado - o brado retumbante:

_ O sol da liberdade em raios fugidios

Brilhou em outra pátria muito distante!"

E assim a burguesia (de lá) tomou conta do pedaço (daqui)

Eu odeio burguês!

Burguês Celular, burguês Pentium, burguês FMI...

Burguês tecnologia, burguês veloz,

Que viaja de Omega mas não sabe soletrar a palavra

V-O-L-A-N-T-E...

Burguês filhinho-de-papai,

Passa de carro com o som estourando.

E a batida do som revela sua fragilidade burguesa:

"_ Quero parecer moderno e perigoso, mas aqui dentro, protegido,

Lembro fetal as batidas do coração materno: tum-tum, tum-tum..."

Insulto e ódio! Insulto e ofensa! Insulto e mais insulto!

Morte cruel ao burguês ateu!

Deus existe burguês estúpido!

E como Deus existe o povo o suprimirá a golpes de foice e de martelo.

Desaparece, burguês!

Viva o povo brasileiro!

Ode ao Burguês

Mário de Andrade

 

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel

O burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

 

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos,

e gemem sangue de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os "Printemps" com as unhas!

 

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

 

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!

"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

Más nós morremos de fome!"

 

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!

Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!

 

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

 

Fora! Fu! Fora o bom burguês!... 

Mário de Andrade por Lasar Segall

 

 

 

De Mário de Andrade, Recomendo

 

 
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