Cultura Brasileira: no ar desde 1998

A Metodologia em Ciências Naturais

            Após vários séculos o pensamento científico nasce no Ocidente a partir da necessidade de se lidar com a realidade tal qual é e não como trabalhos religiosos da Era do Bronze e outros o impunham, mesmo se aqueles rabiscos ainda hoje sejam respeitados por agrupamentos não científicos – o pensamento não científico não é aqui questionado, apenas colocado em seu lugar: fora do escopo da ciência, exceto nas instâncias da ciência em que se analisa aquele tipo de encaminhamento do pensar humano. O que chamamos de realidade, ou seja, o que é comprovado pelos nossos cinco sentidos físicos aferidos por instrumentos que lhes retifiquem as naturais imprecisões humanas, deve ser examinado de maneira acurada, segundo uma série de normas simples que, ao longo dos séculos, se impuseram a todo o pensamento que se propõe científico, e aqui reitero a proposição verbalizada pelo Astrofísico Neil deGrasse Tyson que, no primeiro e no último episódio da Primeira (esperemos que não única) temporada de “Cosmos: Uma Odisséia do Espaço-Tempo” as coloca com clareza lapidar.

1) Primeira Norma: Questionar a Autoridade. Este era um problema em outros tempos, quando o pensamento dogmático impunha as normas do pensar. Hoje, pode-se optar livremente pelo pensamento científico sem o receio de ser torturado ou morto por ousar “questionar a autoridade de pessoas ou rabiscos da Era do Bronze”. Nas Ciências Naturais, esta questão está, em grande medida, resolvida. A pequena ressalva diz respeito à autoridade do pesquisador que, humano, por vezes constitui uma pequenina autoridade em seu campo específico de estudos e tende a bloquear avanços contrários à sua descoberta – um encaminhamento claramente anti-científico que é rapidamente suprimido tão logo reconhecido e a Ciência avança!

2) Segunda Norma: Fundamentar o conhecimento em experiência e observação. Descartando-se as crenças do passado, formula-se um postulado, uma teoria, e se fazem testes permanentes em torno desta idéia, de novo, através do experimento e da observação empírica.

3) Terceira Norma: Aprimorar as postulações que se comprovam através de experimentos e observações, descartando as idéias que não sobrevivam ao teste do confronto com o experimento e as observações.

4) Quarta Norma: Questionar tudo. Sempre. Inclusive as próprias idéias!

 

Aprendendo a Pensar Criticamente – Notas sobre Metodologia Científica 

Um dos trabalhos mais relevantes e recentes sobre o tema, de Steven Novella, Professor de Medicina em Yale (aguardamos ansiosos sua tradução ao Português): "Sua Mente Caprichosa: um Guia Científico a Habilitar o Pensamento Crítico"

            Antes de mais, é preciso delimitar o campo, esclarecendo que há uma distinção monumental entre a metodologia em Ciências Naturais (como as físico-químicas) e as muitas metodologias discrepantes e divergentes adotadas nas Ciências Humanas. Como já nos aponta Lucien Goldmann, enquanto as Ciências Naturais estudam fenômenos de fato exteriores ao indivíduo (de partículas subatômicas a galáxias distantes), nas Ciências Humanas o foco é precisamente a ação... Humana. Desejável como seja acatar o proposto pelo gênio de Émile Durkheim, “tratar os fenômenos humanos como coisas” demonstra-se impraticável por haver claramente uma identidade parcial entre o sujeito e o objeto do conhecimento.

O Pensamento Crítico

            Ninguém nasce sabendo pensar. Ou andar. Ou falar. Sim, nascemos com o equipamento necessário a aprender tudo isso que é, repita-se, um aprendizado que se pode inclusive optar por não ter. Na sociedade contemporânea aqui na latitude e longitude em que vivemos, as crianças recebem suas primeiras lições acerca de “como pensar” em casa, de seus pais, a seguir da omnipresente Televisão, a seguir com professores e coleguinhas na escola de primeiras letras e assim por diante.

            Em geral, o Pensamento Crítico é ensinado nas melhores Instituições de Ensino Superior – lastima que não em todas... – quando o jovem já está com tal carga de conhecimentos não críticos nem científicos, que se torna hercúlea a tarefa de suplantá-los, isso quando levada a cabo, o que acontece com menor frequência que o desejável.

            Há alguns bons trabalhos acerca deste tema; o melhor que conheço, publicado em Português pela Editora Mestre Jou, é Introdução à Lógica, de Irving M. Copi, que recomendo enfaticamente. E o melhor a que tive acesso até hoje é o Curso de Steven Novella, professor de medicina em Yale, intitulado Your Deceptive Mind: A Scientific Guide to Critical Thinking Skills. Não há ainda, até onde sei, uma versão em Português para aquele curso com cerca de 18 horas de duração dividido em lições de 30 minutos cada.

Introdução à Lógica - Irving M. Copi

            Em Introdução à Lógica, Copi a define como “o estudo dos métodos e princípios usados para distinguir o pensamento correto do incorreto” a partir de premissas e argumentos que podem, depois de acurado exame, ser considerados válidos ou não. Com abundantes exemplos e milhares de exercícios com a resolução ao final da Obra, trata-se de um Trabalho fundamental a quem está se formando em um Curso Superior. Recomendado a todos os cursos.

Para dar um gostinho... A partir de premissas, chega-se a determinadas conclusões e a este tipo de raciocínio dá-se o nome de Silogismo. Há sempre um Termo Maior, seguido de uma segunda frase que é o Termo Menor e a Conclusão deve ser coerente, como no exemplo: “Todos os homens são mortais” à “Sócrates é homem”, portanto, “Sócrates é mortal”. A expressão “portanto” sempre surge na conclusão de um raciocínio lógico. Um cuidado a se tomar é para com as famosas Falácias. O Autor define “Falácia” como “uma forma de raciocínio que parece correta, mas que, quando examinada cuidadosamente, não o é”. Exemplificando, com uma Falácia: “Todos os homens são bípedes” à “as galinhas são bípedes”, portanto “todos os homens são galinhas”. Note que a Primeira Premissa inclui o Homem numa categoria maior de animais: “Bípedes”. A Segunda Premissa não tem relação com a Primeira (daí a Falácia...) exceto por citar outro animal que também se inclui na mesma categoria de animais: “Bípedes”. Chama-se “Falácia de Acidente”, por vezes “Generalização Apressada” quando se conclui algo a partir de premissas não correlacionadas. Outra Falácia de Acidente: “tudo o que você comprou ontem, comerá hoje” à “Ontem você comprou carne crua”, portanto “Hoje você comerá carne crua”. Note que o termo “o que você comprou ontem” refere-se ao material adquirido, no caso, a carne; não à sua condição, no caso, “crua”. Este mesmo tipo de raciocínio ocorre em gradações mais elevadas e o vemos no cotidiano em campanhas políticas, onde abundam os erros de lógica; a começar pela sua mais completa irrelevância num país com voto obrigatório em urnas eletrônicas não confiáveis...

Outras Falácias comuns dignas de nota: Pergunta Complexa – “responda sim ou não: você já parou com o hábito de trapacear os outros [ou qualquer outro mau hábito]?” Não há resposta de tipo “sim ou não” a uma pergunta assim, obviamente, pois ela implica uma premissa que antecede o questionamento e, em geral, sequer é correta: que o interlocutor tinha algum mau hábito... Argumentum Ad Ignorantiam (argumento pela ignorância) “deus deve existir, uma vez que ninguém consegue provar que ele não existe”; a falácia óbvia aqui é que a nossa ignorância não basta para estabelecer a verdade de um fato ou uma existência; no caso em tela, o ônus da prova fica por conta de quem acredita, não ao contrário! Bertrand Russell nos dá disso um exemplo com sua famosa “xícara de chá chinesa”; diz ele em “Por que não sou Cristão”: “se eu afirmo que existe uma xícara de chá chinesa em órbita do Planeta Marte, pequena demais para ser detectada pelos nossos mais sofisticados instrumentos, cabe a mim provar sua existência e não aos ateus em minha xícara de chá provarem que ela não existe”.

 

Acerca do Guia Científico ao Pensamento Crítico do Professor Steven Novella, cuja tradução ao Português ansiamos, destaco:

_ A necessidade de pensar sobre O Pensar, durante o qual o Autor discorre precisamente sobre o que estivemos conversando até aqui: aprender a pensar. Criticamente.

_ A neurociência da crença. De que maneira o cérebro humano, ao que se sabe hoje em neurociência, é pré-programado para acreditar. A evolução favoreceu aqueles de nós capazes de, na infância, obedecer sem questionar a um comando de uma autoridade (pais, professores...). Uma criança prestes a ingressar num rio cheio de crocodilos terá mais chances de sobrevivência se obedecer imediatamente a um comando “SAIA JÁ DAÍ!” do que uma criança que, em tenra idade, questione os motivos de tanto alarme... Vantagem evolutiva e desvantagem cultural na medida em que a maioria de nós mantém, sem perceber, esta mesma programação mental frequentemente pelo resto da vida: “obedecer á autoridade, sem questionar”, o que é um erro e preserva crenças infantis em coisas irracionais.

_ Erros de percepção. Neste capítulo o Autor trata dos limites do cérebro humano, como no caso das duas linhas paralelas com setinhas nas pontas. Uma delas com setas apontando para fora e outra com setas apontando para dentro. O senso comum dirá que a linha com setas apontando para dentro é maior que aquela com setas apontando para fora. Na verdade, têm exatamente o mesmo comprimento. Outra é aquela que apresenta um desenho que pode ser visto como uma jovem ou uma velha senhora... Nossa percepção visual, assim como a olfativa e auditiva, tem limites que cabe levar em conta em todos os casos.

 

   

 

_ Reconhecimentos de padrão: vendo o que não está lá. Como quando olhamos para uma nuvem ao alto e vemos uma figura qualquer; nosso cérebro prefere organizar as coisas de maneira que reconheça como válida a aceitar a irregularidade que aparece na natureza. Leva por vezes a superstições, por exemplo: se temos sucesso numa empreitada quando usamos um terno, um vestido ou a camisa de uma determinada cor, embora isso não tenha absolutamente NADA a ver com o ocorrido ou como ocorreu, se não paramos para pensar criticamente tendemos a usar o mesmo terno ou a mesma camisa em busca de “sorte” quando novas oportunidades aparecem...

            Logo nas primeiras aulas, portanto, o Professor Novella busca “limpar o campo” na direção da recomendação mais sólida para o Pensamento Crítico: QUESTIONE TUDO. Até mesmo ou principalmente a sua própria percepção da realidade.

            É um curso fundamentalmente negativo(*), ou seja, busca ensinar o Pensamento Válido em confronto com inúmeros exemplos de pensamentos não válidos como “Teorias da Conspiração” – o mundo já é em si suficientemente complicado para que tenhamos de buscar explicações em coisas ainda mais fabulosas do que a realidade em si nos apresenta. “Falácias Lógicas”, dentre as quais destaco “o envenenamento da fonte”; funciona assim: eu não concordo com o seu ponto de vista acerca de algo perfeitamente válido e atribuo o mesmo pensamento a uma pessoa repugnante, como “Você é a contra a Pena de Morte? A maioria dos assassinos seriais também o é!” (Nota: isso, por sinal, sequer é verdade, os maiores índices de aprovação ao Assassinato Institucionalizado, quando o Estado Nacional mata alguém por força de lei, está precisamente na população carcerária que, além do mais, a pratica cotidianamente de maneira extrajudicial...). Caso deseje se aprofundar nesse tema, recomendo, este ensaio de minha lavra: A Questão da Pena de Morte

            Dentre os aspectos positivos(*), a abordagem afirmativa ao invés da negação do inválido, cito “Como reconhecer evidências científicas válidas” – mais um pequenino exemplo: alguém anuncia um remédio que faz emagrecer sem que seja necessário fazer dieta ou exercício; apresenta como corroboração de sua eficácia o depoimento de pessoas que afirmam haverem se beneficiado com o tratamento á base do medicamento mágico. A metodologia científica exige, está lá no alto na segunda e na quarta norma apresentada pelo Neil Tyson: o princípio da experiência exige que, durante algum tempo, se mantenha um grupo de controle, se façam testes duplamente cegos, ou seja, de tal forma que nenhum dos participantes ou aplicadores saiba quem está recebendo o medicamento mágico e quem está recebendo placebo (somente o organizador do experimento pode sabê-lo para que se evite eventuais e desnecessários equívocos) e o resultado deve ser mensurado com uma balança; evidenciado que todos tiveram o mesmo resultado, fica descartado o medicamento mágico e reitera-se a necessidade, para um emagrecimento saudável, de uma dieta balanceada acompanhada de exercícios físicos monitorados por profissionais competentes para isso. Em suma, “depoimentos” ou “testemunhos” de pessoas que alegam haver obtido benefícios, neste caso, não têm validade científica alguma. Questione tudo. Sempre.

            Há muito mais nas 25 aulas deste curso que recomendo a quem domina bem o idioma de Shakespeare. Acima registro apenas uma amostra. Novella aborda ainda, entre outras coisas, “Trapaças e mentiras divulgadas pela Internet e outros meios”, “Ciência versus pseudociência”, “O uso da mídia na difusão de engano”, “delírios coletivos”. Aqui me recordei de um caso interessante: há algum tempo, um Panda fugiu de um Zoológico em Sydney, capital da Austrália. Noticiado pela TV, o animal foi visto em pelo menos 90 lugares diferentes da cidade por pessoas de diversas classes sociais em circunstâncias bastante distintas. Pouquíssimo tempo depois se descobriu que o Panda havia morrido antes de conseguir sair do Zoológico, pois havia passado pela jaula de um predador. Dificilmente se saberá o que foi que tantas testemunhas oculares viram, mas seguramente não foi o Panda. Tais casos trazem à nossa reflexão os problemas de se encontrar uma pessoa ou objeto perdido numa sociedade de massas...

            Reflete ainda acerca dos preconceitos (em inglês, “Bias”, que pode ser traduzido ainda como “viés”, “tendência”, “propensão”, “predisposição”, “influência”); de como enfim somos afetados pelas nossas tendências a aceitar o que já conhecemos e rejeitar o desconhecido, preferir uma opinião com base na herança biológica da pessoa (“etnia”) que a profere, aceitar como válido um conceito emitido que se pareça com algo em que já acreditávamos e assim por diante. Há que se questionar absolutamente tudo e reter somente o que conseguir sobreviver a todos os testes cognitivos.

(*) Utilizo aqui a expressão "negativo" no sentido Hegeliano do termo, da Realidade que não é AINDA mas que existe em potencial, como os 8/9 "invisíveis" de um iceberg que lhe constituem a essência não percebida, ficando apenas 1/9 de sua massa emersa como o aspecto "positivo" da referida ocorrência geológica.

 

A Metodologia em Ciências Humanas

 

            Em comparação com o pensamento científico na área de Naturais, na área de Humanas o pensamento está engatinhando, mal começa a dar seus primeiros passos...

            Os Filósofos, que seguem sinceramente a orientação Materialista Dialética defendem de fato uma série de valores (Humanismo, Planejamento, Defesa da Ecologia, Solidariedade, Justiça, etc.) incompatíveis com o Modo de Produção Capitalista cujos defensores, por seu turno, defendem uma série de valores contrários àqueles do Materialismo Dialético (Mecanicismo, Ausência de Planejamento, “Defesa da Ecologia” no discurso mas não na prática, Competição ao invés da Solidariedade, “Justiça” somente no discurso e para poucos, etc.).

            Mais ainda, se no Materialismo Dialético a Teoria é importante e útil, mas mais importante mesmo é a Prática – Antônio Gramsci, que passou toda a II Guerra nos cárceres de Mussolini, parte para driblar a censura, parte para exprimir uma verdade, chamava o Materialismo Dialético de “Filosofia da Práxis” – todo o pensamento defensor do Capitalismo, da Globalização e, no dizer de conhecido político brasileiro há não muito sepultado, “tudo isso que aí está” busca “Separar a Teoria da Prática”, vetando aos intelectuais qualquer estudo voltado a influenciar a prática existencial dos povos como quer que seja. Um disparate que, para o estarrecimento das Futuras Gerações (se houver Futuras Gerações) é majoritário nos meios acadêmicos mesmo em meio a uma das maiores das múltiplas crises que o Capitalismo traz em seu bojo.

O Estruturalismo e a Miséria da Razão - Carlos Nelson Coutinho

            No ervaçal de correntes filosóficas burguesas há ainda o Estruturalismo que busca reduzir as práticas humanas a “semantemas” e fórmulas matemáticas – eu mesmo estive submetido a uma forma de “lavagem cerebral estruturalista” por 4 anos de que levei mais outro tanto para me libertar e recomendo, antes de se aproximar daquela coisa, “O Estruturalismo e a Miséria da Razão”, do Carlos Nelson Coutinho, um dos primeiros intelectuais autênticos a sair da canoa furada petista já em 2003 ao perceber que o PT, no Brasil, havia mudado de lado ao invés de cumprir seu projeto de “mudar o país”. E um sem-número de outras correntes, contraditórias entre si e proponentes de metodologias distintas, discrepantes e divergentes. Inexiste, até este momento, uma Metodologia Universalmente Aceita em Ciências Humanas e todos sofremos com isso. Um amigo me dizia, entre jocosa e dolorosamente, que “Cientistas da área de Naturais, quando se encontram, trocam informações como ‘descobri uma nova partícula’, ‘descobri mais um planeta em órbita de uma estrela distante’, ‘descobri a vacina para a doença x’, etc. Já os cientistas da área de Humanas, quando se encontram, trocam insultos, ‘comunista’, ‘burguês’, ‘conservador’, ‘radical’, ‘revolucionário’, ‘subversivo’, etc.”

 

Nas Ciências Naturais trocam-se INFORMAÇÕES

Nas Ciências Humanas trocam-se INSULTOS e a metáfora com a luta-livre e o Boxe é frequente "WO", "KO"...

            Incidentalmente, Frans De Waal, um dos Autores que mais tem ocupado meu pensamento nos últimos tempos, afirma, em “O Bonobo e o Ateu” que, participando de um simpósio com Antropólogos de vários países (com exceção do Brasil, que não considera válido o estudo de outros primatas dentro do campo da Antropologia...) esbarrou no muro de intolerância dos Estruturalistas quando afirmou que “o Bonobo – um primata recentemente catalogado e situado entre o chimpanzé e o humano – claramente tem orgasmos, sua sociedade é matriarcal e fundamentada em pan-sexualidade”. O estruturalista buscou ridicularizá-lo dizendo que “sem uma expressão para ‘orgasmo’ é evidente que o animal não o sente”. De Waal, numa forma jocosa de protesto, fez passar alguns bilhetes pela plateia questionando coisas como “sem um vocábulo para ‘Oxigênio’, como é que os Tupinambá respiram?” Um, dentre muitos, incidente, dá idéia do tamanho do problema que temos pela frente ao buscar uma Ciência Social Unificada.

            Um dos primeiros muros intransponíveis com que nos deparamos é com a Autoridade, que não pode ser questionada antes que se aventure em elucubrações sobre Metodologia Científica. “Não se pode falar sobre uma Metodologia Científica sem delinear o que já nos deixaram claro Autores como Thomas Khun, Karl Popper, Pierre Bachelard, Paul Feyerabend e tantos outros! Não gostaria de ser mal interpretado de novo... CONHEÇO os principais trabalhos desses caras e mais: reconheço-lhes o valor. Discordo não apenas de suas postulações principais como mesmo da necessidade de se passar por eles para que possamos pensar em Ciências Humanas! Com a mesma repugnância que tenho por Max Weber, particularmente em “Ciência e Política - Duas Vocações”. Discordo que não se possa AGIR a partir de Teorias Políticas. DISCORDO visceralmente de Weber neste ponto!

Uma proposta nova?

 

            Um Astrônomo não precisa sequer haver folheado (ou mesmo conhecer o nome ou visto a capa do livro...) Thomas Khun ou Karl Popper para, sentando-se ao Telescópio, observar o comportamento dos Astros e sobre eles tecer suas teorias, respeitando, naturalmente, as normas básicas propostas logo ao início destas notas, formado que é em Astronomia. Tampouco um médico ao pesquisar a cura para o Ebola precisa saber quem foi Ludwig Wittgenstein, Paul Feyerabend ou Pierre Bachelard! Deve conhecer a fundo sua área de pesquisa, não necessariamente a biografia dos pioneiros, mas seguramente as obras matriciais dos estudiosos de sua área como Louis Pasteur, por exemplo.

            Outro problema com o qual o Cientista Social se defronta é precisamente esse emparedamento por trás do Argumento de Autoridade (já em si um descumprimento da Primeira Norma Básica a toda a pesquisa científica séria!). Tem de falar de Feyerabend, Bachelard, Popper, Khun, apontar o que há de valor e o que, em sua opinião, há de questionável em suas obras...

            Se não há outro jeito...

            Em primeiro lugar, acuso os digníssimos cidadãos que se debruçaram sobre o que ficou batizado como “Epistemologia” – a ciência refletindo sobre a ciência, os filósofos têm tanta dificuldade em sobreviver sem este verbete quanto os bonobos sem o sexo – de JAMAIS haverem passado sequer perto de postular um conjunto simples de regras básicas sem as quais ficaria impossível considerar um trabalho em Humanas “científico” e proponho começarmos o quanto antes!

1) Questionar a Autoridade. Sempre!

2) Partir sempre do pressuposto – até evidência forte em contrário – que todos, por mais reacionários e anti-humanistas que se declarem, almejam chegar a uma sociedade melhor para todos. Todos, sem exceção. Postulo que o atual sistema de castas – tão onipresente na prática quanto negado na propaganda travestida em “teoria” política – é intransponível e inexpugnável implementado pelo Capitalismo em sua Etapa de Globalização e precisa ser revertido em benefício do Humano.

3) A experiência e a observação da atuação humana no mundo demonstra sobejamente a urgência de um acordo acerca das regras básicas nas Ciências Humanas. Que, em Ciências Humanas, se repita o ruído ensurdecedor dos mercadores sacolejando suas bolsas cheias de moedas tomadas ao alheio, cooptando e corrompendo alguns, silenciando outros e obstaculizando a pesquisa ao desespero é inaceitável. Questionar a Autoridade do Mercado é fundamental em Ciências Humanas. Questionar a Autoridade dos poderosos de hoje que fatalmente serão os encarcerados de amanhã é vital para avançarmos!

4) A experiência neoliberal fracassou tão rotundamente que mesmo aqueles que a seguem praticando – como os EUA, a União Européia e a América Latina – preferem não se assumir como “neoliberais” passando a auto-designar-se como “trabalhistas”, “nacionalistas”, “republicanos”, “democratas”, “socialistas” e até mesmo “comunistas”. Títulos que se tornaram tão carentes de conteúdo quanto ricos em bazófia. Sem meios termos: a Economia tem de ser PLANIFICADA, planejada. Ausência de planejamento, deixar as trocas de bens e serviços ao cargo da chamada “sagrada mão invisível e cega” dos mercados é um crime! Essa mão pode ser “invisível e cega” para os empobrecidos, mas só pode ser considerada “sagrada” pela minoria bem minoritária dos que dela se beneficiam.

            Há muito que se debater e discutir. Dispensam-se as leituras prévias de Khun, Popper, Manheim, Wittgenstein, Bachelard, Saussure et caterva. Se você, como eu, gostaria de ver a Espécie Humana ter alguma forma de Futuro, vamos conversar. Oferto meus contatos através do Facebook para seguirmos o debate.

 https://www.facebook.com/lazaro.chaves

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 27/09/2014

                 

Revisado a 03/11/2014