Cultura Brasileira: no ar desde 1998

55 anos da Revolução Cubana – do período heróico à decadência atual

 

 

Conceito Inicial: Transformações e valores diferentes

"Desconfiai do mais trivial,

na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente:

não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta,

de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,

de humanidade desumanizada,

nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.)"

Bertolt Brecht

          Dentro dos fenômenos humanos no mundo, a única permanência é a mutação, a transformação, o movimento. Os valores de hoje são distintos dos valores de outros tempos e a maior certeza – talvez a única – que se pode ter é que os valores de amanhã serão distintos dos de hoje.

          Dia destes folheando meu diário de quando tinha 15 anos li um trecho em que celebrava o 15º Aniversário da Revolução Cubana e escrevia sobre algumas experiências existenciais que faziam sentido para mim naquele período. Como me transformei, tanto na aparência quanto em essência: era um menino magrinho, musculoso e com uma farta mecha loira saltando-me do centro da cabeça; estou gordo e calvo; e velho. Dentro da cabeça guardava sonhos e esperanças e o romantismo típico de quem começa a juventude; ainda não haviam inventado a figura do “adolescente” no Brasil; era-se criança, jovem ou adulto; hoje sigo sonhador, mas menos idealista quanto à condição humana, com o romantismo moribundo e quase nada de esperança. O que, neste exemplo prosaico, vale para um ser humano vale para uma sociedade.

          Os valores (morais – éticos – e estéticos) eram totalmente distintos dos atuais como usualmente ocorre com o passar das décadas: havia corrupção na política, mas parecia algo raro e distante – e mesmo escandaloso quando descoberto; havia menos desigualdade social e, consequentemente, a violência urbana era rara e também escandalosa quando noticiada. Vivia-se o auge da Ditadura Fascista plantada no Brasil pelos EUA, quando se começou o desmantelamento da máquina pública e o “estado mínimo” se concentrava principalmente nas Forças Armadas.

Mesmo com todos os reveses, a Educação Pública superava – em muito – a privada e os pais prometiam aos filhos “se você não estudar e não passar de ano, terei de matriculá-lo numa escola privada do tipo papai-pagou-passou”: os professores entravam nas salas de aula com poucos alunos e todos se levantavam; na entrada hasteava-se a Bandeira Nacional e cantava-se o Hino Nacional Brasileiro; os professores eram respeitadíssimos e davam-se ao respeito de maneira que seria incompreensível nos dias que correm.

Os pais ensinavam aos filhos que a melhor forma de se conseguir sucesso na vida era através dos estudos e comprovação de valor pessoal próprio. Havia concursos e torneios de matemática, de xadrez, de literatura e muita premiação a quem se distinguisse. Orgulho-me até hoje de haver recebido das mãos do Governador Flecha Ribeiro (sei lá de que partido e sequer me recordo se era interventor da Ditadura no Rio de Janeiro ou eleito...) o título, que conquistei com estudos árduos, de “Melhor Aluno do Estado do Rio de Janeiro” com uma caneta de ouro, um certificado, manchetes nos jornais e depoimentos a emissoras de rádio. Este tipo de estímulo ao Saber existiu no Brasil e não há nada que proíba o seu ressurgimento. Francamente lamento que a Educação (em especial a Pública) haja seguido um caminho tão melancólico de degradação e degenerescência – e siga ladeira abaixo, infelizmente.

O tempo atual despreza o Saber, intelectuais são ridicularizados ou ostracizados (até certo ponto, convenhamos, não sem alguma razão) e à medida em que o individualismo e o medo, molas propulsoras do capitalismo, avançam, almeja-se conquistar fama e fortuna de maneira apressada e não meritória, ampliando a espiral de violência e corrupção ocasionada pelo crescente distanciamento entre as classes sociais: o Brasil é hoje o país mais desigual (tem algumas das maiores fortunas lado a lado à mais abrangente miséria) de todo o continente americano enquanto a propaganda onipresente aponta na direção oposta da realidade. Tempos diferentes, valores diferentes.

Em meus 15 anos, pelo rádio, ouvia-se canções românticas e políticas fundamentavam-se em poesia e tinham um lirismo cativante. Músicas que contavam historinhas ou traziam uma mensagem ética relevante. Quem viveu aquele tempo ou mesmo tiver a curiosidade de pesquisar a música brasileira das décadas de 50 até 80 constatará um diferencial marcante em relação ao que hoje se canta e se dança entre os jovens. Naturalmente, considero aquele tipo de música esteticamente mais agradável que o modelo atualmente hegemônico e compreendo que a geração atual se sinta mais identificada com a música contemporânea do que com a de meu tempo.

Tudo se transforma no mundo humano, nada é como foi antes e não será amanhã como é hoje ou mesmo como foi ontem. Toda a análise histórica que falhe em reconhecer a transformação, falsifica a realidade ao invés de buscar compreendê-la. 

 

 

Cuba 1930 – 1958 – Fulgêncio Batista

Naturalmente, devemos compreender cada período histórico a partir das forças políticas que atuam em cada momento, mas como é usual no mundo humano apontar-se um personagem ou grupo de personagens que incorporam em si o Espírito de seu Tempo (o que os alemães chamam de ZeitGeist), não é de todo descabido estudar este ou aquele personagem para compreender pelo menos uma parcela do momento histórico que se deseja compreender.

Fulgêncio Batista y Zaldívar (Cuba - 1901 – Espanha - 1973) estreou no cenário político internacional como líder da “Revolução dos Sargentos” de 1933 em Cuba. Dentro do momento histórico (já ultrapassado, por supuesto) conhecido como populismo, que na América Latina surgiu também no México, com Lázaro Cárdenas, na Argentina com Juán Domingo Perón e no Brasil com Getúlio Dorneles Varges, contava com um leque de alianças que ia dos liberais até os comunistas e foi o homem forte de Cuba entre 1933 e 1944. De 1933 até 1940 governou nos bastidores, como eminência parda do regime populista na Ilha. Em 1940 elegeu-se presidente da república e encabeçou o movimento que culminou numa das mais progressistas das constituições nacionais da América Latina. Terminou seu governo em 1944 e mudou-se para os EUA onde viveu até 1952, quando voltou à Ilha como candidato a uma nova gestão como presidente da república. Não foi eleito e, com o apoio do grande capital estadunidense, dos latifundiários cubanos e até da Máfia, liderou um golpe de Estado, abolindo a constituição de 1944 e instaurando um regime brutalmente anticomunista e profundamente corrupto (qualquer semelhança com a trajetória política de Lula da Silva NÃO É mera coincidência: alguns líderes se apegam ao poder pelo poder, governam em seu próprio interesse e no daquela classe social que representam, distanciando-se da maioria do povo e amealhando fortunas pessoais pornográficas, fruto do trabalho honesto de uma gente pobre que constitui a maioria). De 1952 até 1959 a Ilha se transformou num bordel estadunidense, um “paraíso tropical” para milionários e traficantes (termos não necessariamente auto-excludentes) com jogos de azar por toda a parte – Cuba chegou a ser um grande cassino naquele período trágico de sua história – prostituição em abundância e tráfico de drogas onipresente, fazendo a fortuna de poucos às custas da desgraça da maioria. O povo cubano se revoltou e se rebelou derrubando-o do poder em janeiro de 1959. Batista foge primeiro para a República Dominicana, na vã esperança que seus comparsas estadunidenses o reconduzam ao poder, levando consigo a gigantesca fortuna que amealhou, a seguir para Portugal e termina seus dias na Espanha de Francisco Franco. Ao tempo, muitos dos mafiosos e enriquecidos às custas do povo cubano fogem e recebem refúgio em Miami. 

 

Um povo descontente e não se sentindo representado pelo regime em vigor, gesta lideranças

 

Perguntas de um Operário Letrado

 

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio

Só tinha palácios

Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.

 

O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?

 

Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?

 

Tantas histórias

Quantas perguntas

Bertolt Brecht

 

Segundo Edmundo Moniz em A Originalidade das Revoluções e Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, a Revolução Russa foi fundamentalmente uma Revolução de Operários Fabris, a Revolução Chinesa foi fundamentalmente orientada pelos Camponeses e a Revolução Cubana foi fundamentalmente MORAL.

O principal herói da Revolução Cubana foi O POVO CUBANO. A bobagem de se imaginar que um líder ou grupo de pessoas possa conduzir o povo contra a sua vontade cai por terra com facilidade. Se o foco revolucionário em Cuba teve tanto sucesso, tal se deveu mais à insatisfação do povo com o regime de Fulgêncio Batista do que propriamente às qualidades individuais (de resto absolutamente inegáveis) de líderes que saem do povo ou expressam sua vontade, como Fidel Castro, Camilo Cienfuegos ou Che Guevara.

De todas as abominações inseridas na Ilha pelo Golpe Militar liderado por Fulgêncio Batista em 1952, a prostituição constituía o vetor que mais insatisfações causava. Lado a lado com a jogatina exorbitante e a leniência para com o tráfico de drogas, o povo cubano se sentia profundamente lesado pela transformação da Ilha em bordel estadunidense. Apesar (ou por causa) de todo o apoio financeiro de grandes empresas estadunidenses como a Coca-Cola e a Ford, Batista precisou utilizar de todos os artifícios fascistas conhecidos para conter o descontentamento popular: pululavam esquadrões da morte, aprisionamentos, tortura e assassinatos de líderes sindicais e comunistas eram corriqueiros e se praticava uma censura brutal aos meios de comunicação – o mesmíssimo modelo anticomunista que os EUA utilizariam em toda a América Latina durante as décadas de 50, 60 e 70 do século passado (no Brasil, na Argentina, no Chile, no Paraguai, no Uruguai...).

Outro curioso paralelo entre o governo ditatorial de Batista iniciado em Cuba a 1952 e o Brasil, ditatorialmente governado por Wall Street – através de seus marionetes tucanos e petistas desde 1998 – está nas altíssimas taxas de desemprego, descaso para com a educação e a saúde públicas além da total entrega da economia do país aos financistas estadunidenses em troca de régias compensações para os dirigentes de fachada.

Quando Fidel Castro, a 26 de julho de 1953, lidera o Assalto ao Quartel Moncada, é preso, sentenciado com seus companheiros a 15 anos de prisão e anistiado em 1955, o povo cubano começa a perceber claramente ali o surgimento de uma liderança que, no mínimo poderia evitar que suas filhas se prostituíssem e se drogassem nos cassinos estadunidenses. No México, Fidel Castro funda o Movimento 26 de Julho e, em 1956, um pequeno grupo de 82 exilados a que se une o argentino Ernesto Che Guevara, compra o navio Granma e desembarca na Ilha; chegam a um local pouco propício, no meio de mangue, são bombardeados pela Força Aérea de Batista, muitos morrem e poucos chegam até a famosa Sierra Maestra, onde se entrincheiram e de onde organizam sua Guerra de Guerrilhas contra o governo impopular e ilegítimo que tomara o país de assalto em 1952. Jamais teriam sucesso se o povo cubano não o desejasse e o apoiasse. A insatisfação com o governo ditatorial de Batista somada à simpatia do povo para com “os barbudos” de Sierra Maestra galvanizou seu sucesso, que, longe de ser imediato, levou 3 longos anos de agonia para conquistar o sucesso. Numa onda crescente de esperança e entusiasmo os Guerrilheiros finalmente fazem sua entrada triunfal em Havana, com muita festa, nos primeiros dias de Janeiro de 1959 e iniciam um processo de transformações radicais no encaminhamento da política e da economia cubanas.

 

  

 

 

Vitória! E agora?

 

“É muito difícil iniciar uma Revolução. Mais difícil ainda mantê-la em andamento. Mas, uma vez vitoriosa, aí sim é que começam as grandes dificuldades” – Gillo Pontecorvo em A Batalha de Argel

Uma das primeiras avaliações dos Guerrilheiros agora à frente do Poder em Cuba era a de que seria necessário desmobilizar o antigo Exército, formado em valores distintos daqueles que se preconizava a partir da Revolução vitoriosa. Muitos oficiais e praças foram julgados e justiçados por crimes contra a humanidade, alguns fugiram para Miami (que se tornou o foco da luta contra-revolucionária) e alguns foram simplesmente desmobilizados e conduzidos a outras atividades. Os Guerrilheiros agora constituíam o núcleo central das Forças Armadas Cubanas e um dos orgulhos do povo cubano durante muitos anos foi a obrigatoriedade, a todos os cidadãos da Ilha, de portar armas para defender-se contra qualquer tentativa de ataque estadunidense. Em nenhum outro país do mundo o povo mobilizado e armado constituía o cerne da defesa do regime que eles mesmos criaram.

A abolição completa de todas as formas de jogos de azar foi outro ponto crucial. Também durante décadas, Cuba era o único país do mundo a não ter sequer uma loteria ou qualquer forma de jogo a dinheiro. A única forma de se obter o valor de troca universal (dinheiro) era através do trabalho honesto.

A prostituição foi abolida em tempo recorde e os resquícios que remanesceram – como de resto em todas as comunidades humanas do mundo – foram aqueles devido ao que se poderia chamar de “prostituição por vocação”, não mais por absoluta necessidade, como ocorria até antes da Revolução.

Em fevereiro de 1959 foi criado o “Ministerio de Recuperación de Bienes Malversados” que iniciou um processo de desprivatização e expropriação de empresas multinacionais e Reforma Agrária, reconquistando ao povo cubano as terras tomadas pela Igreja e por latifundiários; cubanos e estrangeiros.

Até aquele instante, a Revolução contava com alguma simpatia de pelo menos uma parcela do povo e mesmo do governo estadunidense. A expropriação de bens que haviam sido roubados do povo cubano para empresas estadunidenses criou o primeiro estremecimento em relações diplomáticas que até hoje não se restabeleceram por completo.

Tentou-se e experimentou-se vários modelos econômicos possíveis – distintos do capitalismo – errou-se e aprendeu-se muito. Pressionado em grande medida pela animosidade estadunidense contra um povo que finalmente se libertava de suas garras, nascendo o que os cubanos, por muitos anos se orgulhavam em chamar de TERRITÓRIO LIVRE NA AMÉRICA.

Em 1962 Cuba se aproxima da União Soviética e anuncia que seguirá o caminho do socialismo (dito) real. Uma capitulação inevitável devido ao momento histórico que se estava vivendo; dentro do contexto da Guerra Fria a União Soviética apoiava os povos que se libertavam da dominação estatunidense e nada poderia ser mais interessante aos soviéticos que ter uma país tão próximo aos EUA (meras 70 milhas náuticas distante de Miami) como seu aliado.

A União Soviética comprava o açúcar (principal produto da pauta de exportações cubanas) a preços mais elevados que os do mercado internacional e vendia petróleo a Cuba a preços bem mais baixos que os praticados pelo mercado internacional, possibilitando à Ilha um tempo de grande prosperidade e crescimento seguro com precisa distribuição de rendas, sem classes sociais privilegiadas ou exploradas como ocorre no capitalismo clássico.

Pessoalmente vejo o que se chamou de “socialismo real” como um capitalismo de Estado cujo principal motor era a Economia Planificada, um avanço substancial diante do caos econômico preconizado pelos epígonos do capitalismo como se fora “liberdade”. Já ficou mais que evidente que liberdade para o capital implica em escravização do humano e vice-versa.

Ainda em 1962 ocorreram dois fatos marcantes: o desembarque de tropas estadunidenses na Baía dos Porcos – devidamente rechaçada pelo povo cubano com relativamente pouca dificuldade – e a famosa “Crise dos Mísseis”. Os EUA mantêm bases de mísseis atômicos na Turquia que têm o potencial de atingir Moscou ou São Petersburgo em poucos segundos. Retribuindo a cortesia, os russos começaram a montar silos para lançamento de mísseis nucleares em Cuba, capazes de atingir Washington ou Nova Yorque em poucos segundos também. O governo estadunidense, após momentos de grande tensão, negociaram com os russos o compromisso de não mais tentar intervir diretamente na Ilha e, em contrapartida, os russos se comprometeram a retirar o material de montagem de mísseis da Ilha. Foi o momento histórico em que se esteve mais próximo de uma guerra nuclear entre as duas superpotências.

Nota sobre a Guerra Fria

Devo aprofundar este tema no espaço apropriado mas, apenas para fins de esclarecimento, é preciso ressaltar que, ao final da II Grande Guerra na Europa, a URSS contava com o maior, mais bem armado e treinado Exército do mundo. Hoje sabemos que tal ocorreu não “por causa” da liderança de Stalin, mas antes APESAR dos muitos expurgos de generais tremendamente qualificados perpetrados pelo paranóico Stalin e seu lugar-tenente, Lavrenti Béria. O povo russo conseguiu, após muitos reveses, montar um exército profissional superior às forças fascistas da Alemanha. Venceram a Alemanha praticamente sozinhos, com relutante apoio da Inglaterra e de Partisans (gente patriótica que resistia aos nazistas) de vários países ocupados por tropas fascistas; os estadunidenses estavam envolvidos na Guerra no Pacífico, contra os japoneses e torcendo muito para que os nazistas destruíssem “o país dos comunistas”. Oficialmente havia uma aliança contra os fascistas, entre a URSS, a Inglaterra e os EUA, mas esta sempre foi frágil e desconfortável a todos os participantes; enquanto os russos ansiavam por auxiliar a libertar os povos da Europa da exploração capitalista, os Ingleses e estadunidenses ansiavam pela destruição do país dos sovietes. Estas metas díspares explicam o início da Guerra que se chamou de Fria. Na leitura dos soviéticos o fascismo constituía miseramente a “cara feia” do capitalismo, sendo a democracia (dita) liberal sua cara menos antipática: duas faces da mesma moeda, moeda da qual os comunistas queriam DISTÂNCIA!

Enfim, com a vitória definitiva do Exército Vermelho na Batalha de Berlim em 1945 e a Capitulação Incondicional dos nazistas de um lado e a derrota total do Japão no Pacífico os estadunidenses decidiram que seria necessária uma “demonstração de força” para conter qualquer outro avanço soviético em terras europeias. Por isto, mesmo com o Japão já destruído e derrotado, foram despejadas duas bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, menos para “forçar a capitulação” de um inimigo já derrotado e mais para intimidar a União Soviética. Assim começa uma corrida armamentista que acabará por destruir a União Soviética no início da década de 90 – a necessidade de se defender de um possível ataque dos estadunidenses os levou a utilizar recursos indispensáveis ao bem-estar dos soviéticos para a alimentação de uma máquina de guerra que se manteria poderosa por muitos anos. Os estadunidenses tinham recursos inesgotáveis à sua disposição oriundos de suas colônias e semi-colônias (Brasil, Venezuela, México...), os soviéticos, por sua vez, buscavam conquistar corações e mentes com ajudas humanitárias e mesmo militares. Houve confronto – indireto – entre soviéticos e estadunidenses em vários pontos do mundo como o Vietnam (a primeira e maior derrota militar infligida aos estadunidenses em toda a sua história de dominação internacional), a Coréia e mesmo Cuba.

Corroída por corrupção interna (as Nações não são compostas por anjos impolutos, mas por seres humanos imperfeitos) e sufocada pela corrida armamentista imposta pelos estadunidenses, a URSS finalmente se fragmenta em 1991, levando consigo todos os países a que prestava qualquer forma de ajuda. Cuba inclusive.

Apenas a título de curiosidade: em alguns livros didáticos ainda se lê coisas como “em alguns momentos havia tantas armas nucleares à disposição das duas superpotências que seria possível destruir o mundo alguns milhares de vezes”, o que é um exagero desnecessário e uma inverdade física: não há – até o presente momento – tecnologia capaz de produzir a energia necessária a “destruir o mundo” sequer uma vez. Inverdade física parcial, contudo: a destruição causada pela explosão de diversos artefatos nucleares poderia ocasionar um grave desbalanceamento climático ameaçando seriamente a vida em todo o planeta; mas sequer a destruição de todas as formas de vida do planeta seria possível mesmo se isso se intentasse, apesar de todo o avanço destrutivo que se construiu até esta data. Leitura Indicada neste ponto específico: Da Guerra Fria ao Fim da URSS

 

 
 

 

As Ajudas Externas de Cuba a outros países e a idéia do “Foco Guerrilheiro”

Após a Revolução e por pelo quatro décadas, Cuba atingiu níveis superiores aos de muitos países do chamado Primeiro Mundo no que tange a Saúde e Educação. A Medicina Tropical Cubana é referência, ainda hoje, em todo o mundo.

Durante a Guerra Fria e com o apoio soviético, médicos e engenheiros cubanos participaram dos esforços de libertação dos povos em países como Moçambique, Angola e Nicarágua, além de enviar ajuda para “focos” guerrilheiros contra as Ditaduras Militares semeadas na América Latina pelos estadunidenses.

O maior problema da idéia do Foco Guerrilheiro é que não se pode transplantar as condições específicas de um país a outro sem uma rigorosa e bem aprofundada análise teórica das condições existentes no outro país. Tomemos dois exemplos:

1 – Em 1965 Che Guevara decidiu-se a deixar Cuba e tentar criar focos guerrilheiros para libertação dos povos na África (mais especificamente no Congo) e na América do Sul (mais especificamente a partir da Bolívia). Che Guevara sempre foi um Revolucionário de ponta e de ação, mas não um teórico de profundidade. Na Bolívia, com um grupo idealista e bem preparado do ponto de vista militar, lidou-se com uma situação completamente distinta daquela existente em Sierra Maestra. Muito simplesmente, faltou apoio popular. O povo boliviano, naquele momento, não prestou aos guerrilheiros o apoio que estes tiveram do povo cubano – em Cuba, a Revolução começa com a insatisfação popular e a Guerrilha meramente canaliza energias já vigorosamente enraizadas no povo (o ódio à subordinação abjeta aos interesses e mesmo à concupiscência dos estadunidenses a que o povo cubano estava submetido) na Bolívia as condições eram outras, no interior, onde se entrincheiraram, falava-se mais o Guarani que o Espanhol e faltava intérprete. Os mapas que usavam eram pouco acurados e, enfim, não se faz uma revolução sem que o povo assim o deseje.

2 – A Guerrilha do Araguaia – No Brasil, um grupo de pessoas bem intencionadas, contudo mal preparadas, imaginou possível iniciar uma revolução contra a vontade do povo – que, sabemos hoje, de fato apoiava a Ditadura Militar naquele momento histórico: a propaganda das Organizações Globo em apoio à Ditadura e detratora dos Guerrilheiros – chamados em todos os editoriais e reportagens do “Doutor Roberto Marinho” e seus asseclas de “Terroristas” – general golpista de turno recebia o título de “Presidente” e todas as honras das Organizações Globo que, de resto, dependiam da Ditadura Militar para se manter no ar. Isto tornava a ação dos Guerrilheiros complicada, pois na prática neutralizou qualquer possibilidade de propaganda de boca a ouvido. A “Marcha da Família com Deus e Pela Liberdade”, liderada pela Igreja Católica, as violentas campanhas dos pastores teleevangelistas que começaram a surgir contra os “Terroristas”. Aqui, de novo, não se faz uma revolução sem que o povo assim o deseje. Deploravelmente, seja por fraca formação intelectual, seja por sua pusilânime formação moral, a única coisa que aqueles Guerrilheiros – alcunhados de “Terroristas” pelas Organizações Globo, que hoje os apóiam – aprenderam foi que o povo brasileiro deseja se manter dentro da corrida de lobos do capitalismo e assim, a luta daqueles Guerrilheiros da década de 60 que era por uma mudança de regime, chega ao início do século XXI com a mudança de lado dos outrora Guerrilheiros, hoje perfeitamente alinhados a tudo contra o que lutavam há pouco menos de meio século.

 

Ocaso

Quando você coloca um pedaço de carne fresca ao lado de um pedaço de carne podre, é mais provável que a carne podre estrague a boa que a fresca venha a regenerar a carne podre. Isto vale também para as sociedades humanas. Wilhelm Reich, “A Função do Orgasmo”

Em 1962 ainda, os EUA exigiram a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e instituíram um Bloqueio a Cuba que segue em vigor, mas se afrouxa à medida em que Cuba vai adotando as medidas impostas pelo Império. Lamentavelmente.

Em 1976 o jornalista Fernando Morais viajou a Cuba por um trajeto (então inevitável se se desejasse visitar a Ilha) que começava em Moscou, atravessava a Europa e chegava ao Aeroporto José Martí numa aventura tão clandestina quanto vigiada por todas as agências de informação, espionagem e segurança dos EUA e da Europa. Hoje se toma um avião em Cumbica direto a Havana sem grandes tribulações. Pode-se mesmo viajar de Miami a Havana em voos comerciais de companhias aéreas privadas (algo impensável em 1976).

No livro, o Autor faz uma narrativa romântica e impressionante acerca das conquistas de Cuba até aquele momento que era o “Ano 17 da Revolução”; ressalto:

_ Procurando, não encontrou prostitutas ou drogas (e recebeu várias advertências)

_ Tentando pagar uma gorjeta recebeu o repúdio do profissional do hotel onde se hospedava diante desta abjeta prática burguesa. De volta a Havana em 2001, tascou uma nota de um dólar para sondar a reação do funcionário e ganhou um sorriso... Sinal dos tempos.

_ Alegando dor de cabeça e buscando comprar uma aspirina foi repreendido pelo funcionário (público, claro está) da farmácia de que “somente poderia fornecer, e sem custo, medicamentos, em troca de uma receita médica”. Como era madrugada, tentou ser razoável com o funcionário da farmácia que retrucou: “há pelo menos um médico de plantão para cada cem pessoas em qualquer lugar do país a qualquer horário” e lhe indicou o posto de atendimento mais próximo. De posse da receita, recebeu, de graça, do funcionário da farmácia, alguns comprimidos de Ácido Acetil Salicílico num envelope de papel pardo, limpíssimo mas sem indicação alguma de fabricante ou propaganda farmacológica.

_ Desemprego zero – de fato, não mera propaganda como no Brasil com 30 milhões de pessoas recebendo o bolsa esmola e mais 20 milhões que “preferem não procurar emprego”

_Violência urbana zero embora todos fossem, por lei, obrigados a portar arma.

_ Todo o esporte profissional foi abolido e os esportistas – sempre entre os principais ganhadores das mais expressivas medalhas olímpicas – eram todos operários, professores, médicos, engenheiros ou o que o valha que praticavam esporte em seus momentos de lazer, sem remuneração estatal nem despesas com o material desportivo, ampla e generosamente fornecido pelo Estado.

Não se pode agradar a todo o mundo e mesmo em 1976 era possível encontrar aqueles que prefeririam um regime com diferenciações sociais mais marcantes e menos igualdade salarial. Em Cuba todos se encontravam numa situação que chamaríamos de “remediada”: ninguém tinha problemas para morar, se vestir, se alimentar, se transportar, se educar ou receber tratamento médico, dentário e hospitalar, etc. Contudo, se desejasse gozar do “Último Grito da Moda” em vestimenta, automóvel, eletrodoméstico ou o que o valha, não conseguiria. Não na Ilha. Não havia miséria. Nem riqueza ostensiva. Todos recebiam um salário – do Estado – compatível com a atividade que exerciam e o maior salário jamais ultrapassava 9 vezes o menor. Como os preços praticados na Ilha estavam rigorosamente controlados, cada aumento salarial significava efetivo aumento – coletivo – no poder aquisitivo.

Com o fim do “socialismo real” na Rússia, que segue sendo parceiro comercial de Cuba mas já não tem condições nem pulsão para subvencionar a Ilha, os preços do açúcar e do petróleo obedecem as leis de mercado internacionais. O país como um todo, se torna mais pobre. A igualdade ainda se mantém, mas a insatisfação cresce, particularmente duas gerações depois dos fatos que levaram o povo a se rebelar contra o controle dos EUA sobre sua economia.

Veja o curto-circuito do chamado “programa mais médicos”, imbróglio em que o governo cubano e governo brasileiro se meteram. Os médicos seguem sendo enviados nas mesmas condições que o eram no auge da Guerra Fria, ou seja, a salários cubanos. Para viver num país com preços brasileiros. Receita para o desastre.

Muitos criticam os cubanos por receber prebendas do governo brasileiro que tanto se assemelha ao regime de Fulgêncio Batista, contra o qual lutaram. Bem, se os brasileiros desejam construir obras faraônicas na Ilha, uma coisa que os cubanos parece seguir sendo é patrióticos. De onde ou de quem vem a prebenda, pouco importa. Absurdo mesmo é o governo brasileiro privilegiar a ajuda a uma Nação estrangeira ao bem-estar de seu próprio povo. Mas, aqui novamente, vale ressaltar: é exatamente assim que o povo brasileiro deseja que sua vida política e econômica seja encaminhada e nada se transformará enquanto este consenso – fundamentado no tripé individualismo-ganância-medo – estiver tão firme nos corações e mentes de nossa gente.

Cuba em 2014 EVIDENTEMENTE não é mais o que era no período heróico da Revolução e o mais provável é que venha a sucumbir como já sucumbiram outras Nações que se libertaram da escravidão capitalista. Questão de tempo.

O que não se pode é imaginar que os povos do mundo venham a cessar sua ânsia por uma situação existencial menos canibalesca que a capitalista, dê-se ao novo regime – que sequer se vislumbra no horizonte dos possíveis ainda – o nome que se queira dar. A história dos povos do mundo é dialética, NÃO CHEGOU AO FIM, A UTOPIA é constitutiva do estar humano no mundo e, mais dia, menos dia, em algum lugar, norteado por valores próprios em condições específicas o capitalismo chegará ao final como ao final chegaram a escravidão e o feudalismo.

Lázaro Curvêlo Chaves – 18/02/2014

Revisado a 08/01/2015

Dicas para Aprofundamento

 

A Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917

Globalizados e Globalizadores - O Que é Globalização

Discurso del Comandante Che Guevara en la Asamblea General de las Naciones Unidas

Vozes contra a Globalizacão - um outro mundo é possível

O Que é Sociologia? Uma Nova Abordagem

 

  

 

 
 
 
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