# Flip: Angela Davis cita pensadores brasileiros e critica gentrificação em Paraty

> Angela Davis, na Flip 2026 em Paraty, criticou a gentrificação e o racismo ambiental na cidade durante o Dia Internacional da Mulher Negra. A ativista citou pensadores brasileiros como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez em conversa com Flávia Oliveira, celebrando a presença e resistência negra no evento literário.

*Cultura Brasil · Análises e Críticas · 27 de julho de 2026 · Anselmo Tavares Rebouças*

No Dia Internacional da Mulher Negra, Angela Davis participou da Flip 2026 em Paraty. Em conversa com Flávia Oliveira, a ativista criticou a gentrificação e o racismo ambiental na cidade, citou pensadores brasileiros como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, e celebrou a presença

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) teve um sábado (25) marcado pela presença da ativista e pesquisadora Angela Davis. No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, também Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ela participou de um evento público e gratuito no Sesc Caboré, em conversa com a jornalista Flávia Oliveira. A mesa fez parte da programação paralela da Festa, que se encerra neste domingo (26).

**Angela Davis critica gentrificação e racismo ambiental em Paraty.** A ativista denunciou o processo de valorização imobiliária que expulsa moradores pobres de suas terras. "Queria falar sobre a gentrificação que está acontecendo em comunidades pobres aqui em Paraty. E também sobre o racismo ambiental. Os jovens nos falam que estão preocupados com o meio ambiente, que eles não têm futuro. Eles não terão futuro para viver neste planeta. Aqui em Paraty, tentam criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras, das terras dos seus ancestrais", disse.

**A presença dos ancestrais e a dimensão cultural da luta.** Sobre a cidade histórica, que foi palco do festival, Angela afirmou: "Nós podemos sentir a presença dos ancestrais aqui nesse lugar, que tiveram papel fundamental durante o período da escravização". Para ela, o processo de luta pela liberdade do movimento negro tem uma dimensão cultural que estava sendo celebrada no evento. "Há algo sobre a natureza da música, da arte e da literatura que nos permite alcançar dimensões que não são alcançáveis de outro modo."

**Conceição Evaristo na plateia e a força da escrevivência.** Angela agradeceu a presença da escritora mineira Conceição Evaristo, que estava na plateia. "É um prazer que ela esteja aqui presente. Muito obrigada pela sua literatura tão bela." Para a ativista, Conceição está no mesmo patamar de relevância da cantora Nina Simone e da escritora Toni Morrison, ambas norte-americanas. Ao comentar sobre a "escrevivência", conceito literário criado por Conceição, Angela mencionou que demorou muito tempo para o reconhecimento de que as pessoas negras precisavam contar e compartilhar as próprias histórias. "Toni Morrison nos mostrou que a experiência branca não é universal."

**Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez: pensadores brasileiros citados.** Com mediação de Flávia Oliveira, que foi apresentando nomes de pesquisadores e ativistas, Angela comentou sobre as contribuições da brasileira Beatriz Nascimento. "Quando ela falou 'eu sou atlântica', ela emitiu o sentimento que nos chega a todos, que nos faz sentir parte de um mundo gigantesco." A ativista também citou a autora e ativista brasileira Lélia Gonzalez, referência nos estudos de gênero, raça e classe. "Eu amo a Lélia Gonzalez", afirmou. Ela acrescentou que Lélia é uma inspiração há muito tempo, destacando o conceito da Amefricanidade. "Naquele conceito ela reconhece que a luta negra, em qualquer parte do mundo, não pode acontecer também sem o povo indígena."

**Crítica ao capitalismo e aos trilionários.** Angela afirmou que Lélia Gonzalez é uma crítica do capitalismo, algo que considerou necessário na "primeira era dos trilionários". "Especialmente porque temos bilionários e trilionários que estão explorando a terra, não se preocupam com nada mais do que fazer dinheiro sem pensar nas consequências." Para ela, essas pessoas não representam o futuro do planeta. "Devemos considerar que essas pessoas são o motivo pelos quais a vida é tão difícil para tantas outras pessoas no planeta. O capitalismo acaba lucrando mais."

**Fascismo, eleições e a força do povo.** A ativista comentou sobre o prejuízo causado pela ascensão de governos autoritários e afirmou que o povo é mais forte do que o fascismo que pretende governá-lo. "Fascismo é uma coisa que está emergindo na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas não entre o povo." Ela citou as eleições no Brasil naquele ano, mencionando que não se pode permitir que candidatos alinhados ao fascismo sejam colocados no poder.

**Redução da jornada de trabalho e inclusão nas universidades.** A redução da jornada de trabalho e a inclusão de pessoas negras nas universidades também foram temas abordados. Segundo ela, a redução poderia permitir mais tempo de lazer e acesso à cultura. Angela contou que alguns lugares da Europa já estão vivenciando essa redução. Sobre o Brasil, lembrou: "Na primeira vez em que visitei o Brasil, havia poucos negros na universidade. Eu estava aqui e eu vi um novo sistema universitário se desenvolver na Bahia, eu vi mudanças palpáveis e nós devemos celebrar essas mudanças porque vocês as conquistaram. Nós conquistamos essas vitórias, mas não nos acomodemos com essas vitórias. Temos que continuar lutando."

**O poder da luta coletiva e a prisão que a moldou.** Como forma de demonstrar o poder da luta coletiva, Angela rememorou o período de sua prisão, quando foi perseguida por seu ativismo no Partido Comunista e nos Panteras Negras, presa sob falsa acusação de conspiração, sequestro e homicídio. "Eu digo que eu não fiz muito, eu estava sentada na prisão. As pessoas estavam nas ruas gerando o movimento que impediria que aqueles homens que estavam no poder tomassem essa decisão [pela pena de morte]." Em diversas partes do mundo, houve protestos por sua libertação. Ela disse acreditar que a maior parte do que fez no ativismo e no trabalho acadêmico foi porque a prisão lhe trouxe uma evolução. "Quando olho pra trás naquele período, vejo que foi um presente."

**Defesa da Palestina e violência de gênero.** Angela lembrou ainda da luta em defesa da Palestina, da qual participa desde a década de 60. "Uma das vantagens de a gente ficar velha é que a gente acaba reconhecendo que as coisas podem mudar. Eu digo isso porque, por um longo período, parecia que seria impossível a opinião pública mundial ser contrária ao Estado de Israel." Ao comentar sobre violência de gênero, citou que não há apenas a violência íntima, que ocorre no âmbito doméstico, mas aquelas cometidas pelo Estado. "Vamos pensar também na violência do Estado", concluiu.

## Perguntas Frequentes

### Angela Davis participou de qual edição da Flip?

Ela participou da programação paralela da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2026.

### Quem mediou a conversa com Angela Davis na Flip?

A conversa foi mediada pela jornalista Flávia Oliveira.

### Que pensadores brasileiros Angela Davis citou?

Ela citou a historiadora e ativista Beatriz Nascimento e a autora e ativista Lélia Gonzalez.

### O que Angela Davis disse sobre gentrificação em Paraty?

Ela denunciou o processo de gentrificação e racismo ambiental, afirmando que a cidade tenta criar meios para ganhar mais lucro tirando pessoas de suas terras ancestrais.

### Conceição Evaristo estava presente no evento?

Sim, a escritora mineira Conceição Evaristo estava na plateia e foi celebrada por Angela Davis.

### Angela Davis comentou sobre redução da jornada de trabalho?

Sim, ela defendeu que a redução poderia permitir mais tempo de lazer e acesso à cultura, mencionando que alguns lugares da Europa já estão vivenciando essa mudança.

Flip 2026 programação completa Quem é Angela Davis Conceição Evaristo e a escrevivência

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