Flip: evento de abertura define Orides Fontela como poeta universal
Na noite de quarta-feira (22), a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) abriu com a mesa em homenagem a Orides Fontela. O crítico Augusto Massi, amigo e editor da poeta, a definiu como universal, percorrendo sua obra desde Transposição (1969) até Teia (1996).
Na noite de quarta-feira (22), a 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) teve sua mesa de abertura lotada. O crítico literário Augusto Massi, amigo e editor da poeta, subiu ao palco para definir Orides Fontela como poeta universal. A declaração abriu a programação que homenageia a escritora até domingo (26), em diversos espaços do centro histórico de Paraty.
"Orides Fontela é uma poeta universal. Muitas vezes, a gente perde a dimensão diante do anedotário que envolve a Orides. Eu queria só sintetizar que ela é frágil e forte. Ela é alucinada e lúcida. Ela não é um sim, nem um não, mas é um sim que traz o não no seio", disse Massi.
A travessia pela obra de Orides Fontela
Augusto Massi, crítico literário e professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), apresentou a trajetória literária da escritora como quem leva o "leitor pela mão" ao cruzar uma ponte. A metáfora da travessia para o outro lado de um rio guiou a plateia até a poesia de Orides.
Na apresentação, Massi destacou elementos que atravessam o trabalho da poeta. A formação católica, a cultura greco-romana, os estudos em filosofia e, mais tarde, a experiência no zen budismo marcam a abertura às influências do Oriente.
Os cinco livros e o Prêmio Jabuti
Ao longo da carreira, Orides publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, que tem prefácio do crítico Antonio Candido, ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia.
Massi apontou que Rosácea representa um caminho novo. "Vem um poema muito conhecido dela, dos mais antológicos. Ela começa um caminho novo, não só pela [influência do zen budismo], mas é a primeira vez que ela fala da vida pessoal dela", relatou.
A herança concreta da pobreza
O poema Herança, de Rosácea, foi citado como exemplo dessa virada. "Da avó materna, uma toalha (de batismo)", escreveu Orides. Massi explicou: "Esse 'de batismo', entre parênteses, também é importante, porque ela está dizendo quase as origens dela".
No poema, após falar da avó, a poeta lista objetos "do pai" e "da mãe": um martelo, duas chaves, um caldeirão e um lenço. "Não tem verbo, são coisas. É uma herança concreta de alguém de uma família pobre. É como se dissesse: 'a pobreza, na Orides, é a sua riqueza'. Tudo que ela reduz vira alguma coisa que se irradia de sentido", concluiu Massi.
Das formas abstratas à voz pessoal
O professor ressaltou que, nas obras anteriores, Orides utilizava especialmente formas geométricas, abstratas, mitos e um interlocutor que falava por ela nos versos. "Ela falava através da Penélope, da Rebeca, através de São Sebastião, agora ela fala dela", disse Massi, citando referências dos poemas.
A pontuação e os sinais gráficos também ganharam destaque. "O gosto da Orides é por uma poesia visual e plástica, o gosto pela imagem", afirmou.
São Sebastião e as flechas do texto
Um exemplo desse uso está no poema São Sebastião, que faz referência a um soldado romano que protegia cristãos perseguidos. Como punição, ele é amarrado e alvejado por flechas. "No poema, a Orides, como sinais de pontuação, usa o travessão. O travessão já são as setas atravessando as palavras, o corpo do texto", analisou Massi.
Teia e o pressentimento do fim
O último livro, Teia, foi publicado dez anos depois do anterior. "Ela demorou para fazer esse livro, é um livro em que ela parece que sente o fim, ela sente que a morte está chegando para ela", relatou Massi.
O crítico fez um contraponto entre os poemas Teia, que dá nome ao livro, e Coruja, publicado em Rosácea. "Não é mais a coruja, que é a caçadora, que é aquela que vai e abate. Essa poética ferina e cruel da primeira Orides. Essa teia é outra, ela fala que 'arma, armadilha' e que no centro da teia 'a aranha espera'", comparou.
Ao fim da apresentação, Massi citou o último poema do livro Teia, o último que Orides publicou em vida: Estrela da Tarde. "Agora que ela vai morrer, que ela sabe que vai morrer, ela está escolhendo a estrela da tarde, a que brilha mais forte. E é uma que não precisa nem da alba [amanhecer], nem da noite. Ela é a primeira a brilhar antes da noite chegar e com muita intensidade", concluiu.
Perguntas Frequentes
Quem é Orides Fontela?
Orides Fontela é uma poeta brasileira, homenageada da 24ª edição da Flip. Publicou cinco livros de poesia entre 1969 e 1996, e ganhou o Prêmio Jabuti com Alba.
O que Augusto Massi disse sobre Orides Fontela na abertura da Flip?
Massi a definiu como "poeta universal" e destacou sua fragilidade e força, além da influência do zen budismo em sua obra tardia.
Quais são os livros de Orides Fontela?
Ela publicou Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996).
O que é a Flip?
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) é um evento cultural que ocorre anualmente no centro histórico de Paraty, com mesas de debate, lançamentos e homenagens a escritores.
Quando acontece a Flip 2026?
A 24ª edição da Flip ocorre de quarta-feira (22) a domingo (26), com programação em diversos espaços do centro histórico de Paraty.