Grande Sertão: Veredas faz 70 anos e permanece instigante
Setenta anos após o lançamento, 'Grande Sertão: Veredas' segue instigante. Especialistas e biógrafos revelam o processo criativo de Guimarães Rosa, a recepção controversa e a permanência do romance como um dos mais ousados da literatura brasileira.
Sete décadas de um clássico que não se entrega
Em julho de 1956, na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, era lançado um dos romances mais desafiadores da literatura brasileira. Setenta anos depois, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, permanece instigante, e não apenas como peça de museu.
Para o professor, economista e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Eduardo Giannetti, o livro combina dois elementos que parecem excludentes: "um cuidado e um apuro formal, inexcedível" e, ao mesmo tempo, uma entrega criativa que Rosa descrevia como possessão. "Ele chega a dizer que é um experimento quase mediúnico", afirmou Giannetti em entrevista à Agência Brasil.
O autor mineiro produziu, entre 1946 e 1956, paralelamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, coletânea de novelas. Ambos foram concluídos e lançados em 1956, depois de começarem a ser escritos em Paris, na França; continuarem em Bogotá, na Colômbia; e, em 1951, na volta de Rosa para o Rio de Janeiro.
Segundo o jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia sobre o escritor mineiro, João Guimarães Rosa, biografia, o romance nasceu de uma história do Corpo de Baile que Rosa desmembrou. "O Grande Sertão era uma história do Corpo de Baile, que ele desmembrou e tornou um romance independente", disse Nossa à Agência Brasil.
A inspiração veio de uma viagem ao interior mineiro com o amigo Pedro Barbosa Moreira, percorrendo a região de veredas e buritizais. Rosa deu a personagens nomes de pessoas do seu convívio, família, cultura e política. Entre os jagunços, está Dos Anjos, referência a Augusto dos Anjos e ao avô do escritor, o major Luiz Guimarães.
A recepção que mudou o olhar sobre o Brasil
Quando lançado, o livro recebeu muitas críticas, especialmente pela linguagem popular dos personagens, identificada como "de outro planeta". "Os personagens que os críticos diziam que falavam como em Marte na verdade falavam como o povo do interior do Brasil. Mostrou que parte da intelectualidade desconhecia este 'outro planeta', que é o Brasil", contou Nossa.
Rosa rebatia: "Eu não inventei uma língua. Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim". O começo do livro com a palavra "nonada", que muitos tomam por neologismo, era, na verdade, recorrente em jornais brasileiros da época.
Ao mesmo tempo em que era considerado difícil, o livro estava entre os mais vendidos já em 1956. "A musicalidade no linguajar dos personagens causa muita empatia, tanto que é um livro que deve ser lido em voz alta", observou o biógrafo.
Leitura que se transforma com o tempo
A cantora e compositora Adriana Calcanhotto, que tem nas obras de Rosa fonte de inspiração, destacou que sem o registro do escritor, aquela forma de falar popular poderia ter se perdido. "É uma leitura obrigatória. Grande Sertão é um livro que todo mundo tem que ler pelo menos uma vez. Quando você lê ele mais de uma vez, e é um clássico, por isso, é outro livro e a gente é outra pessoa depois disso", disse.
A aceitação mundial da obra surpreende. "É uma coisa louca que seja mundialmente, porque é difícil tradução. É um livro que interessa ao mundo todo, exatamente por ser tão regional e universal. Cada ano que passa, ele só cresce", observou a artista.
Perguntas Frequentes
Por que Grande Sertão: Veredas é considerado um livro difícil?
A recepção inicial foi marcada por críticas à linguagem dos personagens, que a intelectualidade da época considerava inventada. Na verdade, Rosa registrava a fala do interior do Brasil, com palavras como "nonada" que circulavam em jornais mas caíram em desuso.
Quanto tempo Guimarães Rosa levou para escrever o livro?
Foram dez anos, entre 1946 e 1956, período em que também escreveu paralelamente Corpo de Baile. A obra foi iniciada em Paris, continuada em Bogotá e concluída no Rio de Janeiro.
Qual a relação de Eduardo Giannetti com Guimarães Rosa?
O imortal da ABL, que ocupa a cadeira 2 que foi de Rosa, descobriu ao ler a biografia de Leonêncio Nossa que é parente do escritor: o pai de Rosa, Florduardo (apelido Fulô), era primo do bisavô de Giannetti, João Pinheiro.
O livro foi um sucesso de vendas na época?
Sim. Apesar das críticas, Grande Sertão: Veredas estava entre os mais vendidos já em 1956, algo que o biógrafo atribui à musicalidade da linguagem que gera empatia no leitor.