Tragédia familiar causada pelo césio-137 é contada em documentário | Análise
Quase 40 anos após o maior acidente radiológico do Brasil, o curta-metragem 'Lourdes e Leide' expõe o sofrimento silencioso de uma família destruída pelo césio-137. O documentário acompanha dona Lourdes, que perdeu a filha Leide e, recentemente, mais um filho, e denuncia a omissã
Em setembro de 1987, dois catadores de lixo, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, entraram no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Lá, encontraram um equipamento de radioterapia e o levaram para casa. Ao remover o lacre da cápsula, viram um pó brilhante azul no escuro: era o césio-137, material radioativo que causaria o maior incidente radiológico da história do Brasil.
Quase 40 anos depois, o curta-metragem Lourdes e Leide, do diretor Angelo Lima, reabre essa ferida. Exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul, o documentário acompanha o cotidiano solitário de dona Lourdes, tomado pelas memórias da filha Leide, que morreu aos 6 anos pela exposição ao césio.
O maior acidente radiológico do Brasil e suas vítimas
O césio-137 chegou à casa de Lourdes e Leide dias depois de ser encontrado. Sem saber do perigo, os catadores venderam o material para um ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que se encantou com a luminosidade e distribuiu a substância para familiares e amigos. As pessoas começaram a sentir náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.
O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco do pó para a filha, Leide das Neves. A menina ingeriu partículas de césio e morreu poucos dias depois, em 23 de setembro de 1987. Seu corpo precisou ser enterrado em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação. Além dela, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição.
'Lourdes e Leide': o documentário que denuncia o abandono
O diretor Angelo Lima conversou com a reportagem da Agência Brasil logo após a exibição no Bonito CineSur. "Foi uma tragédia silenciosa", disse. "Isso foi uma tragédia dentro de uma família, uma família que sofreu muito e perdeu várias pessoas, imediatamente."
Bastante emocionado, Lima foi direto ao apontar responsabilidades: "Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos."
A morte recente de Lucimar e o luto contínuo
Nesta última semana, dona Lourdes perdeu mais um filho, Lucimar das Neves Ferreira. Ele tinha 14 anos na época do acidente com o césio. "O Lucimar era um menino que foi internado [na época] e ganhou uma pensão também do Estado. Mas, aí, ele começou a beber muito, sabe? E teve um enfisema pulmonar violento. Ela [Lourdes] está muito chocada", contou o diretor.
O presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Marcelo Santos Neves, publicou um vídeo nas redes sociais da associação. "A gente se entristece porque, com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis", disse Neves. "Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível, porque vai ser muito dolorido para ela [para a mãe, Lourdes], por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha."
O estigma social que destruiu uma família
Para o diretor, a família de dona Lourdes já sofreu demais. "Essa é uma tragédia violenta. Essa família foi totalmente abalada [por conta desse acidente radioativo]. Naquela época, eles não podiam chegar na rua, está me entendendo? Na rua, as pessoas falavam: 'olha aí o pessoal do Césio' e trancavam as portas, sabe? Eles tiveram que se mudar várias vezes", contou Lima. "Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias."
O estigma foi tão forte que, no enterro da pequena Leide, "chegaram a jogar pedras", segundo o diretor. "Naquela época, eles [os familiares] sofreram coisas muito fortes assim."
Exposição e memória no Bonito CineSur
O curta Lourdes e Leide foi exibido na noite de segunda-feira (27) no Bonito CineSur, festival que acontece até o próximo sábado (1º) na cidade de Bonito. Além da exibição, o festival promove uma pequena exposição de fotos que ajuda a contar a história do acidente com o césio-137, incluindo imagens de Leide e de seu enterro.
O que mudou (ou não) desde 1987
Na visão do diretor, a tragédia "poderia acontecer com qualquer um" e a sociedade brasileira precisaria estar mais preparada. "Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade", disse Lima.
A fala do diretor ressoa com a realidade de dona Lourdes, que perdeu uma filha e, décadas depois, um filho, sem que o Estado tenha oferecido reparação psicológica ou social efetiva. O documentário, ao expor esse cotidiano de abandono, não apenas registra a memória, mas denuncia a repetição do sofrimento.
Perguntas Frequentes
O que causou o acidente com o césio-137 em Goiânia?
Dois catadores de lixo encontraram um equipamento de radioterapia abandonado no prédio do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) e removeram a cápsula de césio-137, sem saber que era radioativo.
Quantas pessoas morreram no acidente do césio-137?
Quatro pessoas morreram diretamente pela exposição à radiação nas primeiras semanas, incluindo a menina Leide das Neves, de 6 anos. Décadas depois, outras vítimas, como Lucimar das Neves Ferreira, continuam morrendo em decorrência das sequelas.
O que é o documentário 'Lourdes e Leide'?
É um curta-metragem do diretor Angelo Lima que acompanha o cotidiano de dona Lourdes, mãe de Leide, vítima do césio-137. O filme foi exibido no Festival Bonito CineSur em 2026.
Onde foi exibido o documentário sobre o césio-137?
O curta foi exibido no Bonito CineSur, festival que acontece na cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul.
O que o diretor Angelo Lima disse sobre a responsabilidade pelo acidente?
Lima afirmou que culpa o Estado, não os catadores ou a família, e que a tragédia aconteceu porque as pessoas não tinham dimensão do perigo.
Como está dona Lourdes hoje?
Dona Lourdes perdeu recentemente mais um filho, Lucimar, e vive um cotidiano solitário, tomado pelas memórias da filha Leide, segundo o documentário.