# Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

> Orquestra Criança Cidadã completou 20 anos com concerto no Teatro de Santa Isabel, Recife. O projeto social transformou vidas como a de Isaías Tavares, violista que saiu da comunidade do Coque para se apresentar na Europa. A iniciativa utiliza música clássica para inclusão social de crianças e jovens da periferia.

*Cultura Brasil · Bastidores · 27 de julho de 2026 · Núbia Carvalho Estrela*

Ivone do Santos sobe ao camarote do Teatro de Santa Isabel para ver o filho Isaías Tavares, violista, no concerto de 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã. A história deles, que saíram de uma casa de tábuas no Coque para palcos na Europa, é um dos exemplos de como a música 

## Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

O concerto dos 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã, no Teatro de Santa Isabel, no Recife, celebrou a trajetória de jovens que saíram da periferia para o mundo. Músicos como Isaías Tavares, hoje violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia, e Antonino Tertuliano, único latino-americano na Filarmônica de Duisburg, são egressos do projeto criado pelo juiz João Targino.

## Ivone e Isaías: a história que subiu ao palco

Ivone do Santos, 57 anos, subiu ao segundo andar do Teatro de Santa Isabel com o ingresso nas mãos. Enquanto andava pelo carpete vermelho em direção ao camarote, os olhos marejaram ao falar do filho-ídolo, o violista Isaías Tavares, 33 anos. "Teve muito sofrimento para chegar até aqui", disse.

Ela lembra da casa feita de tábuas de madeira, derrubada por uma tempestade em 2009. Moravam no bairro do Coque, que tinha o menor índice de desenvolvimento humano do Recife. Ivone, então empregada doméstica e mãe solo, viu o teto cair e sentiu como se o chão se abrisse.

O menino Isaías participava, desde 2006, do projeto social Orquestra Criança Cidadã, criado em 25 de julho daquele ano. Os responsáveis conseguiram doações para erguer uma residência de alvenaria em outra rua do bairro. O projeto ficou responsável por pagar o aluguel de uma casa até o novo lar ser erguido.

## O menino que ensaiava com galho de goiabeira

Isaías não se esquece que, quando não tinha a viola, o instrumento era simulado com uma caixa de papelão, e o movimento do arco ensaiado com um pedaço de galho de goiabeira perto de casa. "Foi minha mãe que me estimulou e nunca me deixou desistir", afirmou o músico.

Ela, aos 11 anos, já fazia faxina e cuidava de crianças na casa de outras pessoas, precisando abandonar a escola. Foi no trabalho como doméstica que sustentou o filho. "A vida sem coragem e ousadia é vazia. A gente não sabe se vai dar certo ou não. Precisamos de persistência. Sentado no sofá, não se consegue nada", disse o violista.

Quando entrou para o projeto, em 2006, Isaías teve formação musical, "mas também humana, de cidadão". Como a iniciativa tem sede em um quartel do Exército próximo ao Coque, ele passou a contar com três refeições diárias, o que era impossível antes. A orquestra tinha, na época, o maestro potiguar Cussy de Almeida na regência. Quando Isaías passou a levar a viola para casa, Ivone, mesmo cansada da labuta, ouvia o filho ensaiar até adormecer.

## Do Coque para Salzburgo e Goiânia

Aos 18 anos, Isaías passou em um processo seletivo e foi estudar no conservatório superior na cidade de Salzburgo, na Áustria. Estudou e tocou na Orquestra Sinfônica de Wels. Viajou pela Europa e viu o mundo se abrir com o arco pelas cordas da sua viola.

Quando voltou ao Recife, avisou para "mainha" que faria concurso para Orquestra Sinfônica de Goiânia. Sabia que ela ficaria com saudades, mas seria importante. Não só se inscreveu, como também a outros dois colegas da orquestra. Os três passaram em primeiro lugar nos seus instrumentos.

## Antonino Tertuliano: de adolescente a lenda

Um dos amigos aprovados foi o contrabaixista Antonino Tertuliano. Para ele, era mais uma de sua lista de aprovações nos concursos mais concorridos em sua área. Atualmente, o músico é o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha.

Ele se lembra em detalhes de como chegou à orquestra, com apenas 14 anos, ou da primeira vez que tocou no teatro de Santa Isabel. "Foi aqui que tudo começou".

As crianças e adolescentes da orquestra de hoje olham para Antonino como a uma lenda. Não há, entre os 1.500 jovens que já passaram pelo projeto, um que não tenham ouvido falar do rapaz. "Sempre que eu retorno à cidade, eu costumo fazer uma mesa em que eles me fazem pergunta. Eu digo que é muito possível chegar longe como nós chegamos", afirmou.

Ele conta que a opção pelo contrabaixo surgiu pela ideia de que poderia ser um "instrumento difícil". Com 16 anos, já sabia e avisou aos pais que a música seria a profissão de sua vida. Fazia sua caminhada de 20 minutos até a orquestra e lá ficava o tempo que podia na sala de estudos.

Antonino diz que os demais adolescentes que frequentavam a orquestra eram como irmãos para ele, com os mesmos objetivos: dar um futuro melhor para si mesmo, para a família e se afastar dos destinos de outros rapazes da comunidade, atraídos pela possibilidade de aderir ao crime, como o tráfico de drogas. Os músicos reconhecem que o cenário local se alterou com a implementação da orquestra.

## Herlane da Silva e o doutorado em Houston

Outra egressa da primeira turma, a violoncelista Herlane da Silva, 31 anos, que está no doutorado em Houston (EUA), estava emocionada ao tocar para a mãe, a dona de casa Patrícia, e para o pai, o pedreiro Herculano José. No curso, ela pesquisa a importância dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos.

Conseguiu chegar tão longe porque os pais, além dos professores, a estimularam para fazer música. Ao assistir às crianças ensaiando para o concerto, segurou o choro. "Quando eu cheguei na sala, meu coração começou a palpitar".

## O criador do projeto: juiz João Targino

A trajetória dos artistas, da infância à vida adulta, enche de orgulho o diretor e criador do projeto Orquestra Criança Cidadã, o juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Ele faz questão de explicar que o primeiro objetivo não é apenas formar músicos, mas cidadãos. "Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa", afirmou.

## Igarassu: da roça para a universidade

Uma transformação que não existe apenas na comunidade urbana do Coque, mas também em um núcleo na área rural de Igarassu, a cerca de 30 quilômetros da capital pernambucana. Lá, 40 crianças e adolescentes, filhos de pais que trabalham na roça, estão trocando a lida no campo por instrumentos musicais. "Eles veem no projeto uma oportunidade de crescer, de conhecer e expandir os horizontes", afirmou a professora Basemate Neves, que coordena as atividades no local.

Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Entre os novos universitários, José Felipe da Silva, 20 anos, que hoje é contrabaixista, conheceu o projeto de música há 10 anos na escola pública onde estudava. Antes, a rotina dele era acompanhar os pais na plantação de milho, inhame, macaxeira e feijão. A mudança não foi simples. A família não entendia direito onde ele poderia chegar, mas apoiou a ida do filho para outro campo. Da casa na roça até a escola de música, eram 30 minutos de caminhada. Atravessava mata fechada até chegar à estrada e pegar um ônibus.

## O futuro: turnê pelo Nordeste

Os músicos sonham em produzir espetáculos com mais tempo para encantar ainda mais jovens de diferentes comunidades. Antonino conseguiu aprovar um projeto, via Lei Rouanet, para captar recursos e apresentar música clássica em escolas no Nordeste. O trio de músicos, formado por ele e mais dois europeus, se chama Palíntonos. "É uma expressão que significa flexibilidade e tensão, mas nunca rompimento". Antonino diz que quer fazer essa turnê ainda neste ano.

## Perguntas Frequentes

### O que é o projeto Orquestra Criança Cidadã?

É um projeto social criado em 25 de julho de 2006, pelo juiz João Targino, que oferece formação musical e cidadã para crianças e adolescentes de comunidades de baixa renda no Recife e em Igarassu.

### Onde fica a sede do projeto?

A sede fica em um quartel do Exército próximo ao bairro do Coque, no Recife. Há também um núcleo na área rural de Igarassu.

### Quantos jovens já passaram pelo projeto?

Cerca de 1.500 jovens já passaram pelo projeto desde sua criação.

### Quais são alguns egressos de destaque?

Isaías Tavares (violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia), Antonino Tertuliano (único latino-americano na Orquestra Filarmônica de Duisburg) e Herlane da Silva (doutoranda em Houston) são exemplos.

### O concerto de 20 anos aconteceu onde?

No Teatro de Santa Isabel, no Recife, inaugurado em 1850 em estilo neoclássico, nos dias 24 e 25 de julho de 2026.

### Como o projeto impacta a comunidade?

Os músicos reconhecem que o cenário local se alterou com a implementação da orquestra, oferecendo alternativas ao crime e abrindo portas para a universidade, como no caso de quatro alunos de Igarassu aprovados na UFPE.

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Fonte (canonical): https://culturabrasil.pro.br/bastidores/periferia-mundo-concerto-marca-20-anos-projeto-recife/
