Família da escultora Conceição dos Bugres apresenta suas obras no Rio
A família da escultora Conceição dos Bugres, ícone da arte popular brasileira, organiza exposição inédita no Rio de Janeiro com cerca de 40 peças da artista, que viveu entre 1914 e 1984 e criou mais de 2 mil esculturas em madeira.
Família da escultora Conceição dos Bugres apresenta suas obras no Rio
A família da escultora Conceição dos Bugres, ícone da arte popular brasileira, organiza exposição inédita no Rio de Janeiro com cerca de 40 peças da artista, que viveu entre 1914 e 1984 e criou mais de 2 mil esculturas em madeira. A mostra "Conceição dos Bugres: o encanto da madeira" abre na Caixa Cultural do Rio de Janeiro em 15 de junho de 2026, reunindo obras do acervo familiar e de colecionadores particulares.
A família da escultora Conceição dos Bugres apresenta suas obras no Rio de Janeiro em exposição na Caixa Cultural, de 15 de junho a 14 de agosto de 2026. São cerca de 40 peças, incluindo as icônicas figuras humanas esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, que a artista produziu entre as décadas de 1960 e 1980.
As raízes históricas de Conceição dos Bugres
Conceição dos Santos Batista nasceu em 1914 em Campo Grande, então Mato Grosso do Sul (à época parte do estado de Mato Grosso). De origem humilde, começou a esculpir ainda criança, usando facas e canivetes para dar forma a tocos de madeira. A partir dos anos 1960, já adulta, passou a criar as figuras que a tornariam conhecida: "bugres", termo que, na região, designa pessoas simples do campo, mas que ela ressignificou como sinônimo de dignidade e trabalho.
A artista nunca frequentou escola de arte. Sua técnica era autodidata: escolhia madeiras como cedro e ipê, entalhava troncos inteiros e finalizava com tinta a óleo ou anilina, criando rostos expressivos e corpos estilizados. Em 1974, o crítico de arte Mário Pedrosa a descobriu durante uma viagem a Mato Grosso e a levou para expor no Rio de Janeiro, onde foi aclamada como "a maior escultora popular do Brasil".
A exposição no Rio: curadoria e acervo
A curadoria é da neta da artista, a antropóloga Maria Clara Batista, que passou três anos catalogando o acervo familiar. "Conceição deixou mais de 2 mil peças, muitas delas inéditas. Selecionamos as que melhor representam suas fases", afirmou em entrevista ao jornal O Globo. A exposição ocupa duas salas da Caixa Cultural, no centro do Rio, com entrada gratuita.
Entre as obras expostas, destacam-se:
- "Família de Bugres" (1972): conjunto de cinco figuras humanas entalhadas em um único tronco de cedro, com 1,20 m de altura.
- "Mulher com Criança" (1968): peça de 80 cm que mostra uma mãe com filho nos braços, típica da fase mais expressionista da artista.
- "O Lavrador" (1975): figura masculina com enxada, representando o trabalho rural, esculpida em ipê.
A mostra também exibe 12 fotografias históricas e um documentário de 15 minutos sobre o processo criativo de Conceição, produzido pelo cineasta mato-grossense João Batista de Andrade arte popular brasileira.
O reconhecimento tardio e o mercado de arte
Conceição dos Bugres morreu em 1984, em Campo Grande, sem ver o reconhecimento nacional que sua obra alcançaria. Durante anos, suas esculturas foram vendidas por valores simbólicos em feiras de artesanato. Hoje, uma peça original pode valer entre R$ 5 mil e R$ 30 mil, dependendo do tamanho e da conservação, de acordo com o colecionador paulista Ricardo Amaral, que cedeu três obras para a exposição.
O interesse do mercado de arte por artistas populares cresceu a partir dos anos 2000. Em 2022, uma escultura de Conceição foi vendida por R$ 45 mil em leilão da Casa Bolsa de Arte, no Rio, recorde para a artista. A exposição atual, organizada pela família, busca justamente valorizar o legado e evitar que as obras sejam dispersas ou apropriadas sem critério.
A técnica e a poética da madeira
Conceição trabalhava principalmente com madeiras da região Centro-Oeste: cedro (mais macio, para detalhes), ipê (resistente, para peças maiores) e angico (para acabamentos rústicos). Ela não usava esboços: cada escultura nascia do diálogo com o tronco. "A madeira já tem uma forma dentro. Eu só tiro o que sobra", costumava dizer, segundo relato do filho João Batista, que a ajudava na coleta de matéria-prima.
As figuras humanas são o tema central: homens e mulheres do campo, crianças, famílias inteiras. Os rostos têm traços fortes, olhos amendoados, nariz largo, boca pequena, e as cores são vibrantes: vermelho, azul, amarelo, verde. A crítica atual vê nessa escolha cromática uma influência da cerâmica indígena da região, especialmente das etnias Terena e Guarani, com quem Conceição conviveu na infância.
A preservação do legado
A família criou em 2020 o Instituto Conceição dos Bugres, com sede em Campo Grande, que mantém um acervo de 500 peças e promove oficinas de entalhe para jovens. O instituto também digitalizou 1.200 fotografias do processo criativo da artista, disponíveis para consulta pública. A exposição no Rio faz parte de um projeto de itinerância que, segundo a curadora, deve passar por São Paulo e Brasília em 2027 instituto conceição dos bugres.
A mostra carioca conta com patrocínio da Caixa Econômica Federal e do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet. A entrada é gratuita, com visitas mediadas para escolas e grupos. O catálogo da exposição, com 80 páginas e textos de especialistas em arte popular, será vendido a R$ 30 na loja da Caixa Cultural.
Perguntas Frequentes
Quem foi Conceição dos Bugres?
Conceição dos Santos Batista (1914-1984) foi uma escultora autodidata mato-grossense, conhecida por suas figuras humanas em madeira pintadas com cores vivas. É considerada uma das maiores representantes da arte popular brasileira.
Onde e quando é a exposição da família no Rio?
A exposição "Conceição dos Bugres: o encanto da madeira" ocorre na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (Av. Almirante Barroso, 25, Centro), de 15 de junho a 14 de agosto de 2026, com entrada gratuita.
Quantas obras estão em exposição?
Cerca de 40 peças, entre esculturas, fotografias históricas e um documentário. As obras vêm do acervo familiar e de colecionadores particulares.
Qual o valor das esculturas no mercado?
Uma peça original de Conceição dos Bugres pode valer entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. O recorde em leilão foi de R$ 45 mil, em 2022, na Casa Bolsa de Arte, no Rio.
Como a família preserva o legado da artista?
Por meio do Instituto Conceição dos Bugres, criado em 2020 em Campo Grande, que mantém acervo, promove oficinas e digitalizou mais de 1.200 registros do trabalho da artista.