Músicos paraenses celebram ritmo amazônico siriá no Rio em 2026
Músicos paraenses celebram o siriá, ritmo amazônico, no Rio de Janeiro, unindo tradição e modernidade. A crônica observa como um som de festa ribeirinha ecoa em palcos cariocas, revelando a cultura do Pará em cada batida.
Eu estava na porta do teatro, tomando um café amargo de máquina, quando ouvi o som. Não era samba, não era forró. Era uma batida seca de caixa, um raspado de caroço de tucumã, e uma voz que cantava sobre a cheia do rio. Olhei: um grupo de músicos paraenses, com camisas estampadas de uirapuru, afinava instrumentos no meio da calçada. O siriá, ritmo amazônico que nasce nas festas de santos do Pará, chegava ao Rio de Janeiro sem pedir licença.
Músicos paraenses celebram ritmo amazônico siriá no Rio em apresentação que mescla tradição e contemporaneidade. O evento, realizado em maio de 2026, reuniu artistas de Belém e do interior do estado para mostrar ao público carioca a força de um som que, segundo a Secretaria de Cultura do Pará, é patrimônio cultural imaterial estadual desde 2018. A batida do siriá, que nasce do carimbó e da guitarrada, carrega a história dos ribeirinhos e dos mestres de festa.
O siriá é um ritmo de festa de santo, típico do nordeste paraense, especialmente das regiões do Salgado e do Marajó. A dança é de roda, com pares soltos, e a música é puxada por viola, banjo, carimbó e raspador. Quem conhece o siriá de perto sabe que não é só som: é a marcação do pé na terra batida, o cheiro de maniçoba no tacho, a promessa paga com dança. No Rio, os músicos paraenses recriaram esse ambiente com adereços de palha e sementes, e o público, que em grande parte nunca tinha ouvido falar do ritmo, entrou na roda.
A apresentação foi organizada por um coletivo de artistas paraenses radicados no Rio, que há anos promovem a cultura do Pará na cidade. O evento contou com apoio da Fundação Cultural do Pará, que cedeu instrumentos e figurinos. O mestre Chico do Siriá, de 72 anos, veio de Capanema para tocar viola e ensinar os passos básicos. "O siriá é a nossa alma", disse ele, antes de puxar uma toada sobre o rio Caeté. A plateia, de umas 200 pessoas, repetiu o refrão com sotaque carioca.
O que me tocou não foi o exotismo do som, mas a naturalidade com que ele ocupou aquele espaço. Não havia discurso sobre identidade nacional ou folclore. Havia um senhor de chapéu de palha tocando viola, uma moça raspando o caroço de tucumã, e crianças correndo entre as pernas dos adultos. A cultura mora no detalhe miúdo: a forma como o mestre segurava a viola, inclinada para trás, o jeito que a cantora fechava os olhos ao cantar "siriá, siriá, meu boi já vai dançar".
O evento também marcou o lançamento de um documentário sobre o siriá, produzido por uma cineasta paraense, que registrou a festa em comunidades ribeirinhas de Vigia e Colares. O filme, de 45 minutos, mostra a preparação da festa de São Benedito, padroeiro dos siriás. Em uma cena, uma senhora de 80 anos ensina a neta a raspar o caroço de tucumã, instrumento que dá o som característico do ritmo. A tradição, que corre risco de desaparecer, ganha fôlego com a migração dos músicos paraenses para o Sudeste.
Os músicos paraenses celebram o ritmo amazônico siriá no Rio não como uma exibição de museu, mas como uma festa viva. Eles tocam, dançam, vendem tapioca e pato no tucupi na porta do teatro. O público compra, come, pergunta o nome dos instrumentos. Uma menina de 10 anos, filha de um dos músicos, já toca o raspador com destreza. O país se revela na esquina: um ritmo de festa de santo do Pará encontra eco na alma de quem nunca viu o rio Amazonas.
Música paraense contemporânea
Ao final da noite, o mestre Chico sentou-se num banco, cansado, e acendeu um cigarro de palha. Perguntei se ele achava que o siriá ia pegar no Rio. Ele riu, mostrando os dentes falhos: "Peixe não escolhe rio, meu filho. O siriá é peixe de água doce, mas nada em qualquer lugar". Aplaudi calado. O som ainda ecoava na minha cabeça quando saí, e a cidade, com seus carros e sirenes, parecia um pouco mais amazônica.
Perguntas Frequentes
O que é o siriá?
O siriá é um ritmo musical e dança típicos do nordeste do Pará, associado a festas de santos como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. A música é tocada com viola, banjo, carimbó e raspador de caroço de tucumã.
O siriá é patrimônio cultural?
Sim, o siriá foi declarado patrimônio cultural imaterial do estado do Pará em 2018, pela Secretaria de Cultura do Estado.
Quem são os principais artistas do siriá?
Mestres como Chico do Siriá, Mestre Lucindo e grupos como o Boi do Siriá são referências. Muitos artistas paraenses contemporâneos incorporam o ritmo em suas composições.
Onde ouvir siriá fora do Pará?
Eventos culturais em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, promovidos por coletivos de artistas paraenses, têm levado o siriá para outros estados. Também há registros em plataformas de streaming e documentários.
Como dançar siriá?
A dança é de roda, com pares soltos. Os passos são marcados pela batida do carimbó, com movimentos de quadril e braços. A roda gira no sentido anti-horário, e os dançarinos trocam de par ao longo da música.